Mais um. O meu primeiro. (brainwasherpt@hotmail.com)

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

320 - A Puta

Choras por dentro e os olhos reflectidos sem pedires mostram no vidro o que em ti vai. As lágrimas gastaste em choro vão que ninguém ouviu: só te resta o sal que te conspurca os olhos não deixando mais que tristeza crescer.

O perfume que exalas irrta-me e equilibra o dó que sinto por ti. Essas pernas cruzadas por instantes são o resto da decência que mostras por motivo desconhecido ao mundo.

Amo-te por assim seres: por teres a vida que por sorte não tenho. Desconheço-te e choro quando penso por ti.

319

O poeta triste
o homem que não sabe
Razão porque existe
Razão porque sare.

Tudo passa lento
o poeta é faminto
O som vai c'o vento
e com ele o riso.

Já nada lhe resta
O pouco o dado
Aos poucos não presta
Tudo dele foi gasto.

318

Tudo passa lentamente como se derivasse de um pensamento com valor quase nulo. Os segundos são sempre os mesmos e o valor que têm so varia de uma forma psicológica.

Quanto mais velho estou mais rápido tudo é, equilibro isto com o pensar.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

317 - Na brasileira

Pegou num e colocou entre os lábios. Ela por graça e não por instinto pegou no isqueiro e acendeu-o. Ele respirou e sentiu-se mais quente.

Não precisava dizer mas escreveu que gostou.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

316

Se fiz mal que o tenha feito. Se magoei que tenha magoado. Fui sincero. Fui eu. Se me querem querem isto.

315 - No People sozinho

O passado persegue-nos ao ponto
de fugirmos p'ra longe do que ele traz
O passado persegue-nos e faz
o que é junto descer nosso rosto.

Quando se vê finalmente já solto
tudo o resto é liberto mas assaz
Ficamos sós somos ninguém e más
são as memórias que prefazem contos.

Dif'rentes torna-nos o tempo e mais
p'ra libertar se junta. Encontrados
como antes somos p'quenos e os tais
que nunca o fazem mais que sorte têm.

Ah somos fracos. Elas querem e vêm
De que serve s'olharmos p'ros lados?~


314 - De tarde sozinho

Só com ânsia escutei o que era dito
já me tinha mostrado o que eu ouvia.
Nunca bastou a este cego o visto
Insisto que p'los olhos nada tinha.

Agora que estou há motivos?
Acho que os sei só ela os têm, diria
Talvez para eu os encontrar: sinto isto
-só perguntando esta certeza vinha.

A seguir perguntou-me, não disse
por cobardia mais que nada. Merda
Sou egoísta o que agora é eu fui.

A postura que ali não querendo tive
Só quando arrependido se dilui.
E agora sincero que se preste.


domingo, janeiro 30, 2005

313

Ulisses e Torquemada, companheiros e génios de sacanices, falavam que o que tinham resultava do destino que os juntou. Eram parecidos e o tempo que os separava só pequenas arestas limou em sentidos diferentes:os dois pensavam, os dois jogavam à sua maneira um jogo que era o mesmo.

Acumulavam momentos que os formaram e julgavam estar certos ao dizer que tudo o que os fez foi porque alguém disse que assim seria e até a sua parceria tinha de acontecer.

Não digo o resto mas de mais eles falavam- eram coisas deles. O que interessa é o momento, só os momentos interessam.

312

Faz frio. Se me queimar que seja por calor.

312

A solidão é o que mais me inspira;ou simplesmente a reposta a ela é criar algo que, por meros instantes apenas, me distancia deste estado e permite que eu sinta algum calor que nunca tendo é meu.

A tarde passa e registo momentos com nitrato de prata. Momentos não belos mas equilibrados o que, de um ponto de vista racional, eu procuro e que, ao ver numa folha de papel brilhante ou baça, acho que atingi num espaço de 1/15 a 1/1000 de segundos.

Desci sozinho do Carmo e fascinou-me um velho sujo como as ruas que são a sua casa fria. Pedia enquanto descascava uma laranja à porta da casa de Deus no seu dia. Entravam pobres de e não por espírito e julgavam-se bem aventurados por isso. Falando ao velho entrei p'ra ver que outro velho coberto de mantos estava de pé e falava p'ros mesmos que pisavam a casa do outro sem pedir.

Tentei perceber o que ele dizia, no fundo julgando, pelos outros, que algo de sério era;falou de revoluções e ri-me. Cantou frases que não são nossas e chorei, preparando a entrada(não merecida) de Alguém em mim, mas saí antes de Ele o fazer.

O outro velho continuava sentado e falei-lhe de novo, não porque Deus quis. Falou-se de sorte e ele, que não a tinha, disse que a teve mas que hoje vivia sob luz constante e que mantos eram as suas cortinas que também serviam de paredes. Chorei por dentro e era ele que falava:bem aventurado era.

Descia a rua que com outra cor subi e olhei-a tão diferente.

Agora escrevo no comboio, registo com tinta e faz menos frio.

311

Vê agora de onde não
podia sentar o vício
ergue tão discreto a mão
ergue a mão p'ro já 'squecido.

Aqueles que passam lembram
quem fica irá lembrar
aqueles que um dia tentam
de nada serve tentar

A vida promete glória
mas a vida não a traz
a morte permite história
quem passa e toca em nós jaz.

310

A memória é de bronze. Perde a cor com os anos. A forma com os séculos.

309

Escrevesse eu uma história simples e dissesse que ela era minha. Sonho isto, quero isto mas não o consigo.

Escrevo não por escrever, mas escrevo porque tenho e, sem o pensar, o faço. Não pensando, saio eu, e por ser eu é complexo: só faz sentido a quem lê comigo ao lado.

307

Admirada reparou que ele crescera. Deixou-o pequenino numa paragem de autocarro e mais tempo passou por ele do que locomotivas naquela parte da cidade. Não o queria mudar nem esperar por ele (já estava cansada de o fazer) e o que ela não fez os segundos fizeram.

Não vi os seus olhos por não conseguir encará-los mas, sonhador como sou, imagino-os abertos com a pupila o mais dilatada possível como um mar conspurcado pelo negro que sai de um casco aberto pelo impacto ou que simplesmente quebrou de surpresa. As narinas estavam expandidas e ela arfava pela boca que há muito nada proferia - por orgulho nada mais disse, por orgulho expeliu ar com custo.

Acordei mudado.

307

Sou frágil ao ponto de tocado quebrar de não ouvir por medo.

sábado, janeiro 29, 2005

306

Considero-me nesta fase da minha vida um sapo. Não. Acho que dos anfíbios aquele a que sou mais similar é a rã; animal parecido com o o primeiro a ser referido mas que tem a vantagem de ter um nome que rima com a natureza que me falta.

Estou à parte do mundo. Sou diferente e não por escrever um blog que não é um blogue e por dizer convosco. Estou à parte e não sei porquê. Não me sinto feliz nem triste e nada me faz sair do meio: acho que finalmente (ou será fatalmente) em ataraxia depois de tantas vezes a diagnosticar em vão. Por isso sou uma rã.

Gostava que viesse ter ao meu charco (neste caso não imundo) uma princesa - quero que fique bem claro que emprego esta palavra de uma forma não foleira é simplesmente para completar a metáfora- que nada de princesa tenha. Vou ser directo. Não quero falinhas mansas nem sonhos estúpidos e muito menos a crença de que os batráquios falam: quero a substância que quero numa forma qualquer pois a forma não interessa e a substância sente-se.

Com passinhos mansos aproximar-se-á de mim. Vai achar estranho eu não me mexer nem saltar p'ra longe dali e, curiosa, ainda irá mais calmamente, mostrando carinho pelo chão que pisa. Quando estiver perto (e isso só ela sabe o que é) debruçar-se-á levantando um pouco a saia que cobre parte de si - acha que se se sujar me fará impressão mas eu, vítima da publicidade, acredito que qualquer nódoa sai se quisermos. A mão direita irá pouco depois na minha direcção e, depois de a levantar, os meus olhos (provavelmente miópes) verão os dela e assim perceberão tudo o que ela tinha p'ra dizer.

P'ra ver o que já conhecia serei beijado.

305 Não gosto de tipos chamados Brutus

Conselho de amigo:

Quanto menos intermediários melhor é o produto. E, se o fornecedor for correcto, explica o processo de fabrico.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

304

De uma forma simplista
porque o abstracto não tem forma
e eu quero ser objectivo
Eu estou cansado
sinto-o
nas horas que passam lentamente
por mim nunca bruscas.

Alguém me salve
mais não peço
(que + podia pedir?)
Salvem-me
estou aqui
Cansado de mais p'ra gritar.


303

Viva a tudo o que não vivo
Tudo que vivo a passar ao lado
Viva sorrisos e abraços
Que por medo evitei

Hossana nas alturas e não a Cristo
(que mais nos diz a altura)
Hossana a tudo o que está longe
Viva a tudo o que não vivo.

302 Como sempre no comboio

P'los passos dados mede-se a distância que já não se vê

Há quem ame, quem queira e quem fuja
Por amor daquilo que quer
O amor mete medo e a fuga
Justifica-se só p'lo q'rer.

Pele de galinha, pele de medricas e suor
Dor que percorre o corpo não percorrido
Pena p'ra quem vive o juízo
P'ra quem ama e quer partir.