A
Espero pelo comboio que não tarda
como sempre fu eu que me antecipei
Está frio; Dirigi-me para o café mais próximo
E, enquanto escrevo, finjo que vejo a bola
e que, por isso, ouço os comentários
que, por o serem, são ridículos.
No cinzeiro acumulam-se as cinzas que largo com um toque
A chávena de café está vazia e o pires está sujo
No fundo, são como eu:
Largo-me aos poucos em partes diversas
e, sem nada, estou marcado p'lo que tive.
Nunca me dei a ninguém e estou assim
Nunca me mexi e estou cansado.
Tudo me parece cada vez mais incerto
Como o remate que parte do fundo
e que, só depois de entrar na àrea,
se sabe se teve algum efeito.
Porque é que vou a seguir p'ra Lisboa?
Porque é que acho que alguém me espera
baseado somente em olhares e frases que não sei interpretar?
Porquê?
Nunca me apoiei em estruturas sólidas acho eu
E, só por assim ser, o que acho também nunca o foi.
Só conheço o antes só os passos que não dei.
Chegar não é comigo porque nem sequer tento;
Sofro, sei que o faço, mas se o faço é por mim.
B
Cheguei e continuo à espera; mas do quê?
Não cheguei tão cedo - o tempo dispersou-se em conversas
e maior parte de circunstância.
Amigos de minutos que não cheguei sequer a conhecer
Mas que, em minutos, me falaram de vícios
E alguns bem piores do que os meus
Ah! o que faço para o tempo ter algum sentido
Mesmo que seja só por instantes que passam às vezes lentos.
Sorrisos, sonhos, desabafos, justificados por nunca mais os ver.
Para onde vou é que ainda não sei.
Agora que estou é só nisto que penso
E em cada minuto mais eu desço no meu ser que está vazio
O que sou? O que faço? O que quero?
Nunca o soube e este café só vai prolongar
O raciocinio que nunca o chegou a ser.
Os argumentos que apresento até alguém mais novo consegue
se p'ra isso estiver virado
diluir em segundos.
Desinfecta-os e resta um nada
Tão semelhante àquele que os proferiu...
P'ra onde vou é que ainda não sei
Só o vou saber daqui a 20 minutos
Quando quem ainda mal conheço
(nem sequer histórias de comboio ouvi)
Apitar porque chegou à esquina talvez na hora.
E não, não foi ele que se atrasou
Fui eu que me antecipei.
C
Quando? Onde? Porquê?
Não passam os segundos que se prolongam p'la ansiedade
Acumulada pelo desconhecido que se soma um a um.
Afinal tudo assenta no que quero
E no facto de querer algo desconhecido
Anseio acabar a solidão - o que tenho até aqui.
Quero gestos de carinho, sorrisos sinceros
Olhares que, como os gestos, nos dão conforto.
Sou egoísta, sei que o sou, mas tudo o que faço
Por ser eu a fazer, é, mesmo que não seja, por mim.
Não quero descer, não quero usar
Não quero ser ou voltar ao que era.
Quero isto, mas de quem?
Quero alguém ou ninguém
Quero tudo ou só gestos.
Faz frio cá fora, tenho as mãos quentes
mais quentes que a folha;
Até ela está fria coberta de carvão que não arde.
Não sei bem o que quero, já disse.
Mas não quero isto e é tarde.
D
As mãos suam no relento
o corpo pede abrigo que não posso ter.
Sem o branco que cubro nada teria
só um monte de segundos empilhados
gastos a pensar sem sentido.
Não digo qu estas frases o tenham
De certa forma sou modesto não o sendo:
Escrevo à frente de todos indiscreto
como que pinta para se ver.
Faço-o mas só o faço por isso,
Faço-o porque espero não sabendo
não podendo ir mais longe.
"Ousa, Ousa" dizem os outros não percebendo como sou;
Se ousasse mudaria eu seria outro que não eu
e, já o sendo não sou sincero,
escrevo tudo o que não digo.
E
Quem me vê acha-me louco
como o louco que por louco ser
vê elefantes efervescentes.
Escrevo como ele mas como ele não escrevo
Pensam que eu sou louco não o sendo
Mas o que escrevo não é de louco.
O que eu faço é pouco
Afinal quem o conhece?
Mas o louco que mais louco se tece
pelo mundo é conhecido.
F
Cheguei e nada.
H
Parti. Deixo o onde estava que só ao chegar conheci
Vi mas tão pouco ouvi dá-se mas o que me deram
O que será que disseram ( ou disse) sobre mim?
Não sei nada ouvi nada me disse.
Parti sem uma palavra amiga só um beijo de despedida
tão mundano como o da chegada.
A mente é parva como em latim
não se expande para mais longe
Nem tão longe como o que eu estou.
E eu vou, pr'a onde agora cheguei
O que deixei, é que desconheço.
I
Tão mais velha que eu é a companhia desta noite.
Foi-se o sonho que por instantes martelei
(nunca antes assim comi, conspurquei o que me rodeava)
Na sua cara nada vi.
(Será que a olhei?
Porque não o fiz?)
Porque não diz
Logo tudo?
Luto,
Contra mim mesmo.
Com o fim vem o começo
De mais um decadência
que,
como sempre,
è nocturna.
30/10/2004- um pouco antes e um pouco depois da espera