Mais um. O meu primeiro. (brainwasherpt@hotmail.com)

quarta-feira, setembro 08, 2004

300 + qqr coisa (memórias)

So esperei uma vez por ela naquele aglomerado comercial. Ela, a meu ver, esperava-me em qualquer parte (só o vejo agora). Chegou, nessa vez, um pouco atrasada e eu não me importei. Ela cansou-se de esperar que eu fizesse algo...nunca o fiz - somos altos mas as nossas alturas são diferentes.

Ironicamente esta a oeste de tudo; Onde o sol nasce primeiro, tudo cresce mais cedo.

segunda-feira, setembro 06, 2004

240

São quatro da manhã certas. Sidoro está exausto. Sidoro está a tornar-se ele mesmo.

São quatro da manhã e dois minutos: ele vai dormir e sonhar. Ao acordar esquece-se de tudo o que não será real.

São quatro da manhã e três.

239

O Pedro tem um blog. O blog tem um nome giro; como quem lá escreve tem sentido (às vezes complicado) e fala de tudo um pouco. Ele é Rasca como nós. Gosto muito de o ler, tal como gosto muito do meu amigo, embora confesse que às vezes sou preguiçoso demais para o ler a fundo - talvez até seja um bocado egoísta já que exijo muitas vezes que torne tudo mais simples (logo eu que sou um complicado e que tenho o meu amigo sempre para me ouvir e que, muitas vezes sem pedir, tenta descodificar os meus escritos irracionais).

O Pedro é um bom amigo e o seu blog é um bom blog. Mesmo que sejam egoístas nunca serão como eu (um em muitos) só mais um.

238

A mana escreve. A mana desenha. A mana é como eu, embora a ache melhor.

237

Ao longe um pássaro respondia ao canto de outro que já lhe respondera antes. O carro estava imóvel (ou assim me pareceu - um físico fez-me acreditar que estamos sempre em movimento) era o apoio das minhas costas que ainda sentiam o peso de me ter sentado de pernas cruzadas para comer peixe vendido a um preço bastante inflacionado.

A minha boca ainda sabia a saké e a tabaco holandês. O sushi tinha um sabor leve e o flurry só deixa marcas se o comermos vezes suficientes. Não pensei em saúde, ainda sou novo demais para isso, pensei no que sou e, consequentemente, em tudo o que me define - só depois entrei no carro sem fechar a porta. Acho que cresci; estou mais perto do homem que disseram que um dia eu seria. Olho para trás e sinto que agi mal, que dei passos desmesurados e que muitos mais ficaram por dar. Só me magoam os inspirados na minha falta de visão.

Por que não vi aquilo?Porquê?Não chorei, pensei até me levantar e limitar o meu espaço.

236 (De noite talvez perto do mar)

Enquanto eles faziam das suas pûs-me por instantes de parte. Como o fumo percorri a noite e, enquanto me dividia, deixei de ser visto. Peguei no telemóvel por instinto e só o larguei depois de saber que a mensagem estava pendente:

"Um bjinho grand grand grand de boa noite para a ùnica com quem as quero passar. Amanhã vou estar em lx, qqr coisa kolmi. *" (Foi +/- assim só não estou certo do *).

Pensei um bocado. Vi que ansiava beijos que ficaram por dar e uma voz que ainda não ouvira nesse dia; vi e ansiei por eles e por outras pequenas coisas. Levantei-me e conversei supostamente sério - estava noutro lado, era o monóxido que percorria os seus pulmões quase dormentes.

235

Lembro-me que chegou de vermelho. Por fora estava como eu me sentia. Encontrámo-nos na casa com o nome do farol seu vizinho. Nunca a vira assim; nem sequer conseguia associar tal cor à sabedoria. Veio de surpresa pouco depois de eu ter perguntado a uma alfarrabista moderna quanto custaria o "*Paço de Sintra" em versão original: foi ela que me reconheceu.

Tomámos um café e, por ter sido há algum tempo, sei que não o fiz por hábito - ela era a desculpa. Falámos; dissemos merda que só serviu para fazer tempo. Levantámo-nos e fomos para uma zona menos movimentada (daquelas que aliviam os compromissos inexistentes) e, cada um do seu jeito, se entregou.

Repetiu-se o processo até se julgar suficiente. Repetiu-se até mudarmos.

domingo, setembro 05, 2004

234

Eram dois; eram três; eram quatro. Um foi, ficaram três. Esses formaram um triângulo isosceles cujos lados iguais eram bem maiores que o outro. Ao fundo ficou um vértice.

sábado, setembro 04, 2004

233 (A short summer story)

I

Le dernier jour - ou est-il le premier?


II

Entre eles a distância do que toca;
Distintos eram os seus leitos; Tinham
Talvez mais que um só sonho em comum, riam
talvez das mesmas p'quenas coisas. Possa,

Se assim Ele entender, sentir a costa
onde anseio tocar. Ah, nunca veriam
Sem o tipo de fraque não seriam
Mais que uns átomos dispersos sempre às voltas.

A janela fechada não esteve,
Ela não se mexeu, não me fugiu,
Nem um pequeno gesto ela viu

(nem um só passo do que foi jurado).
O mesmo não sou - estou mudado-
Só de bravura tenho ainda sede.

III


Platonico é o que sou
acumulo os sonhos parvos
sou fácil, aceito o dado,
quando eu nunca me dou.

Choro só pelo não feito
pelos passos que não dei
só o faço quando sei
que eu podia tê-lo feito.

Canso os outros mais que eu
sofro quando outros magoei
Nunca me dei a ninguém;
O querido é quem temeu.


IV

O seu cheiro é tão intenso, reconheço-o a metros de distância - os mesmos metros da minha demência. Fico louco. Sei-a perto; fala para longe de mim. O seu cheiro é tão intenso, propenso é ao sonho - não disponho do que anseio mas o cheiro e tão intenso...Eu não desço mais: são letais as subidas, as descidas são constantes. Incessantes as melodias de longe.


V

Um dia no jardim:

Àgua,
o verde da relva,
o vermelho da flor desabrochada.
O descanso,
O nada.
O medo.


VI

Não estou chateado. Estou azul como sempre (só os lábios estão da cor da carne que anseia ser devorada).


VII

Gestos infantis,
um cheiro intenso
propenso
ao sonho.
Conversas p'ra longe
inaudíveis...
Fraca presença.
Lábios sensíveis
Dispersos no sonho
Rodeiam mas não tocam
Parece que deles fogem
os que são de outrem.
Apetece-lhes percorrer
conhecer
outros...
C'oa fuga
Acaba o sonho.


VIII

Ele estava fulo, chateado. Eterno palhaço...Ele foi ridicularizado, usado, por quem o usou.


IX

A paciência tem limites que não é o homem que define - faz-se o que se julga correcto e não se recebe o que se achar certo receber. Aguenta-se por pouco, tal como um desenho por acabar e cujo término é um frete: fica-se com uma imagem e não se chora por ser suficiente.


X

Não espero, espero que saibas,
que já me cansa esperar
não saio deste lugar
até q'eu um dia saia.

O cheiro enlouquece, longe
sempre esteve de mim
quando julguei vê-lo aqui
ele de novo enfim põe-se.

Não espero, espero que saibas,
A espera tem um limite
E eu insisto que ele existe
Quando ele chegar que saias.


XI


È subtil a fúria dele
traz um verde amarelado
Olhem p'ra ele coitado
O desejo à volta dele.

Tenta em vão ser mais coerente
Olhar p'ro lado e gritar
não o faz está a chorar
desejo fá-lo demente.

Passou p'ra folha e esqueceu
O que tinha não mostrou
q'ria gritar e passou
Só a folha percebeu.


XII

Yin e Yang. A tranquilidade e o caos. Por vezes um ganha antes de haver equilíbrio.

XIII

Prelúdio de um beijo.

Tinha o espelho atrás
Só ele reflectia,
via,
o instante.

Aproximaram-se
Fecharam-se os olhos
(os que assim ele gosta de ver)
Tocou-a
Depois mostraram-se
Beijaram-se
Às escondidas
De tudo o que vê...

Porquê?


XIV

A saudade faz com que o resto impacientemente pareça tranquilo. É estranho: sei-a a longe e anseio por ela mas, por assim ser, sinto-me calmo por dentro.

Quando sinto saudades também avermelho: desejo mais que um simples olhar.



terça-feira, agosto 17, 2004

232

Vivemos enquanto a pequena sala tiver espaços por pintar.

231

Os meninos gostam de histórias da carochina: divertem-se e não sentem o passar do tempo. Os adultos não diferem das crianças, só exigem outro conteúdo (digamos: com mais maturidade), com personagens mais realistas e de acordo com o paradigma da altura (sem saber seguem kuhn) ou então completamente fora da realidade. Peguemos na religião que uns seguem religiosamente e que, no fundo, assenta numa história mal contada e que sem fé ninguém acha verdadeira.

As histórias que imagino são outras: têm-me como personagem principal e, em cada sequela, contraceno com uma protagonista diferente; mas, como digo, não passam do que são.

230

O homem cria quando tem de criar

.

(E mais não digo)

229 (O último dia da rapariga engraçada que tinha a mania de dançar no bar e cujo nome desconheço)

Soavam os tambores de guerra. Ela dançava como se se entregasse à causa. Os olhos (fechados) favam mais força ao seu acto. Mexia-se com as batidas levando-nos com ela. Era a última vez que o faria.

228 (auto retrato)

O poeta que escreve, que conta com os dedos as sílabas incontáveis na cabeça pensativa. O poeta que escreve enquanto se torna calvo ajudado por ele mesmo. O poeta e o seu mundo às cores que sente.

227

Há cores que raramente se tocam. Passam por partes paralelas e, entre duas iguais, existe outra que não elas. É cansativo, é saudoso mas, na maior parte das vezes, é assim: as fronteiras a negro são intransponíveis. Porém, em alguns casos, dá-se um fenómeno deveras estranho (não, não se tocam cores iguais): duas estranhas fundem-se e formam um meio termo. Esta, por sua vez, só está adjacente àquelas que a formaram.

226

Por maior que seja a mão há vícios que não suporta. Os limites definimos às escondidas de nós mesmos. A mesa era retábulo a oficina do que ainda não conhecia. Distraia-se da música que não queria ouvir.

225

A escada era estranha. Parecia um desenho de escher sem perspectivas. Cada degrau tinha um tom de verde e era indefinida. A parede já não se via: era azul como o horizonte que já não tocava há algum tempo. No topo o verde era escuro, era certo; foi perdendo cor como o vermelho do seu vestido.

Com um olhar estranho fita o atrás do muro.

224

Mil e uma coisas definem um homem, mil definem o anterior e pelo menos outro. Pessoas, sorrisos, beijos e até números dizem quem somos. Olho p'ra um lado; alguém parecido olha para outro.

Somos tudo o que passou.

segunda-feira, agosto 16, 2004

223 (Le premier jour en tunisie avec Holiday en chantant "you're so easy to remember (and so hard to forget)")

Cheguei julgando-me distante do que fujo. Vi o sol que só a saudade arrefecia pensado que, em pouco tempo, me seria quente. Errei. Atrás do balcão estava um diploma escrito como falava com os seus. Mal o vi percebi que por outros me chegavas.

Ah! Desde que conheço o teu silêncio que o mundo me faz recordar-te. Em Lisboa a publicidade é cirílica, ao meu lado sentam-se pessoas que o segundo nome se apelida de patronímico. Não consigo não te lembrar.

Escrevo a três horas de voo de casa. Escrevo noutro continente. Estou rodeado de mesas de metal vazias; ao fundo oiço ou grilos ou cigarras por vezes interrompidas pelas músicas tunisinas que só me fazem desejar o sítio e o momento em que te conheci. Há poucas horas precediam-nas pessoas que também falavam o teu eslavo. Não consigo, não consigo, não consigo...

Olho p'ros lados e só me lembro de ti. Fecho os olhos e anseio p'lo que quase tive.

222 (Uma questão de qualquer coisa)

Detesto as pessoas que associam a determinadas cores certos sentimentos. Detesto-as; no geral as associações são comuns entre elas porém, comigo, isso nunca sucede.

A minha tristeza é verde; um verde diluído a conta-gotas como a esperança que se esvai com cada passo errado que dou. Se espero, instintivamente, choro.

O quente é branco como a delicada capa de tudo o que aspiro ter. Tão frágil e tão visível no fundo negro que centra.

O rubro é azul como o azul que me persegue e que me queima por dentro.

As cores que sobram são restos que só uso para enfeitar.


(O detestar não é para ser interpretado como tal).