Mais um. O meu primeiro. (brainwasherpt@hotmail.com)

sábado, setembro 04, 2004

233 (A short summer story)

I

Le dernier jour - ou est-il le premier?


II

Entre eles a distância do que toca;
Distintos eram os seus leitos; Tinham
Talvez mais que um só sonho em comum, riam
talvez das mesmas p'quenas coisas. Possa,

Se assim Ele entender, sentir a costa
onde anseio tocar. Ah, nunca veriam
Sem o tipo de fraque não seriam
Mais que uns átomos dispersos sempre às voltas.

A janela fechada não esteve,
Ela não se mexeu, não me fugiu,
Nem um pequeno gesto ela viu

(nem um só passo do que foi jurado).
O mesmo não sou - estou mudado-
Só de bravura tenho ainda sede.

III


Platonico é o que sou
acumulo os sonhos parvos
sou fácil, aceito o dado,
quando eu nunca me dou.

Choro só pelo não feito
pelos passos que não dei
só o faço quando sei
que eu podia tê-lo feito.

Canso os outros mais que eu
sofro quando outros magoei
Nunca me dei a ninguém;
O querido é quem temeu.


IV

O seu cheiro é tão intenso, reconheço-o a metros de distância - os mesmos metros da minha demência. Fico louco. Sei-a perto; fala para longe de mim. O seu cheiro é tão intenso, propenso é ao sonho - não disponho do que anseio mas o cheiro e tão intenso...Eu não desço mais: são letais as subidas, as descidas são constantes. Incessantes as melodias de longe.


V

Um dia no jardim:

Àgua,
o verde da relva,
o vermelho da flor desabrochada.
O descanso,
O nada.
O medo.


VI

Não estou chateado. Estou azul como sempre (só os lábios estão da cor da carne que anseia ser devorada).


VII

Gestos infantis,
um cheiro intenso
propenso
ao sonho.
Conversas p'ra longe
inaudíveis...
Fraca presença.
Lábios sensíveis
Dispersos no sonho
Rodeiam mas não tocam
Parece que deles fogem
os que são de outrem.
Apetece-lhes percorrer
conhecer
outros...
C'oa fuga
Acaba o sonho.


VIII

Ele estava fulo, chateado. Eterno palhaço...Ele foi ridicularizado, usado, por quem o usou.


IX

A paciência tem limites que não é o homem que define - faz-se o que se julga correcto e não se recebe o que se achar certo receber. Aguenta-se por pouco, tal como um desenho por acabar e cujo término é um frete: fica-se com uma imagem e não se chora por ser suficiente.


X

Não espero, espero que saibas,
que já me cansa esperar
não saio deste lugar
até q'eu um dia saia.

O cheiro enlouquece, longe
sempre esteve de mim
quando julguei vê-lo aqui
ele de novo enfim põe-se.

Não espero, espero que saibas,
A espera tem um limite
E eu insisto que ele existe
Quando ele chegar que saias.


XI


È subtil a fúria dele
traz um verde amarelado
Olhem p'ra ele coitado
O desejo à volta dele.

Tenta em vão ser mais coerente
Olhar p'ro lado e gritar
não o faz está a chorar
desejo fá-lo demente.

Passou p'ra folha e esqueceu
O que tinha não mostrou
q'ria gritar e passou
Só a folha percebeu.


XII

Yin e Yang. A tranquilidade e o caos. Por vezes um ganha antes de haver equilíbrio.

XIII

Prelúdio de um beijo.

Tinha o espelho atrás
Só ele reflectia,
via,
o instante.

Aproximaram-se
Fecharam-se os olhos
(os que assim ele gosta de ver)
Tocou-a
Depois mostraram-se
Beijaram-se
Às escondidas
De tudo o que vê...

Porquê?


XIV

A saudade faz com que o resto impacientemente pareça tranquilo. É estranho: sei-a a longe e anseio por ela mas, por assim ser, sinto-me calmo por dentro.

Quando sinto saudades também avermelho: desejo mais que um simples olhar.



terça-feira, agosto 17, 2004

232

Vivemos enquanto a pequena sala tiver espaços por pintar.

231

Os meninos gostam de histórias da carochina: divertem-se e não sentem o passar do tempo. Os adultos não diferem das crianças, só exigem outro conteúdo (digamos: com mais maturidade), com personagens mais realistas e de acordo com o paradigma da altura (sem saber seguem kuhn) ou então completamente fora da realidade. Peguemos na religião que uns seguem religiosamente e que, no fundo, assenta numa história mal contada e que sem fé ninguém acha verdadeira.

As histórias que imagino são outras: têm-me como personagem principal e, em cada sequela, contraceno com uma protagonista diferente; mas, como digo, não passam do que são.

230

O homem cria quando tem de criar

.

(E mais não digo)

229 (O último dia da rapariga engraçada que tinha a mania de dançar no bar e cujo nome desconheço)

Soavam os tambores de guerra. Ela dançava como se se entregasse à causa. Os olhos (fechados) favam mais força ao seu acto. Mexia-se com as batidas levando-nos com ela. Era a última vez que o faria.

228 (auto retrato)

O poeta que escreve, que conta com os dedos as sílabas incontáveis na cabeça pensativa. O poeta que escreve enquanto se torna calvo ajudado por ele mesmo. O poeta e o seu mundo às cores que sente.

227

Há cores que raramente se tocam. Passam por partes paralelas e, entre duas iguais, existe outra que não elas. É cansativo, é saudoso mas, na maior parte das vezes, é assim: as fronteiras a negro são intransponíveis. Porém, em alguns casos, dá-se um fenómeno deveras estranho (não, não se tocam cores iguais): duas estranhas fundem-se e formam um meio termo. Esta, por sua vez, só está adjacente àquelas que a formaram.

226

Por maior que seja a mão há vícios que não suporta. Os limites definimos às escondidas de nós mesmos. A mesa era retábulo a oficina do que ainda não conhecia. Distraia-se da música que não queria ouvir.

225

A escada era estranha. Parecia um desenho de escher sem perspectivas. Cada degrau tinha um tom de verde e era indefinida. A parede já não se via: era azul como o horizonte que já não tocava há algum tempo. No topo o verde era escuro, era certo; foi perdendo cor como o vermelho do seu vestido.

Com um olhar estranho fita o atrás do muro.

224

Mil e uma coisas definem um homem, mil definem o anterior e pelo menos outro. Pessoas, sorrisos, beijos e até números dizem quem somos. Olho p'ra um lado; alguém parecido olha para outro.

Somos tudo o que passou.

segunda-feira, agosto 16, 2004

223 (Le premier jour en tunisie avec Holiday en chantant "you're so easy to remember (and so hard to forget)")

Cheguei julgando-me distante do que fujo. Vi o sol que só a saudade arrefecia pensado que, em pouco tempo, me seria quente. Errei. Atrás do balcão estava um diploma escrito como falava com os seus. Mal o vi percebi que por outros me chegavas.

Ah! Desde que conheço o teu silêncio que o mundo me faz recordar-te. Em Lisboa a publicidade é cirílica, ao meu lado sentam-se pessoas que o segundo nome se apelida de patronímico. Não consigo não te lembrar.

Escrevo a três horas de voo de casa. Escrevo noutro continente. Estou rodeado de mesas de metal vazias; ao fundo oiço ou grilos ou cigarras por vezes interrompidas pelas músicas tunisinas que só me fazem desejar o sítio e o momento em que te conheci. Há poucas horas precediam-nas pessoas que também falavam o teu eslavo. Não consigo, não consigo, não consigo...

Olho p'ros lados e só me lembro de ti. Fecho os olhos e anseio p'lo que quase tive.

222 (Uma questão de qualquer coisa)

Detesto as pessoas que associam a determinadas cores certos sentimentos. Detesto-as; no geral as associações são comuns entre elas porém, comigo, isso nunca sucede.

A minha tristeza é verde; um verde diluído a conta-gotas como a esperança que se esvai com cada passo errado que dou. Se espero, instintivamente, choro.

O quente é branco como a delicada capa de tudo o que aspiro ter. Tão frágil e tão visível no fundo negro que centra.

O rubro é azul como o azul que me persegue e que me queima por dentro.

As cores que sobram são restos que só uso para enfeitar.


(O detestar não é para ser interpretado como tal).

221 (A forca)

Pesam mais as memória que surgem que o corpo que a afinal não mata.

220 ((Longo suspiro) Anos dourados)

Uma vez esperei-a no Carmo. A fonte estava, a meu ver seca; as àrvores ganhavam unm verde que a noite escurecia. Olhava para a porta do convento que, em parte, ainda está de pé:---------------------------------------------------------------------------------------------------------
Dessa vez esperei-a no largo do Carmo. A noite era agradável; a fonte ainda estava seca e as àrvores ganhavam um verde que a noite e as luzes de halogénio tornavam artificial. Eu estava sentado nas escadas que levam à porta do pouco que ainda está de pé; olhava-a e sabia-a intransponível.

De súbito chegou linda. Não me viu logo. Olhei-a com o olhar de carneiro mal morto que só mais tarde me receitou (senti-me tão bem).

Depois do jantar fomos. Estava tudo na mesma.

219 (A aventura no carro tom de cinza/The mighty four in the car of Miguel's mother)

A estrada levava-nos de uma ponta a outra da vila. A meio havia um pequeno trilho com as dimensões (falo de largura) do carro. Entrámos, alterados pela mente, com as luzes desligadas; avançamos pouco, ligámos o rádio e, quando a eugénia largou o machado, gritámos. Avançamos, mas só em nós mesmos: limpos por dentro éramos outros.

Saímos lentamente a apontar para o sol que deixámos de recear.

Limpos por dentro, éramos outros.

218 (Do corredor marista)

I

Ao voltar do norte lembrei-me da terrinha que p'la primeira vez vi aind'eu era infante de sonhos que, aos poucos, e por minha própria vontade, ficaram distantes de mim. Houve vezes em que voltei p'ra eles como o filho que retorna ao pai em auxílio mas, e só na última vez o vi, nunca fui bem recebido.
Hoje olho pa trás e tudo parece mais evidente. Sinto nostalgia; não sinto falta dos sonhos, sinto falta de sonhar.

II

Vi-a pela primeira vez tinha eu pouco mais de uma década. Era verde no meio do betão cuja superfície mudou ao longo da minha assaz infância. Era um abrigo e não cresceu como eu; por falta de senso, pareceu-me sensato.

217 (Outra vez no mesmo de sempre)

Pessoas , mais pessoas: ninguém para mim. Desconheço-os e nem querendo anseio fazê-lo. Gentinha colada, abafada por uma vida que nunca quis. Distraiem-se no túnel, ainda mais abaixo de tudo o que os pisa: na sua vida, menos é sinal de excesso.

Erguem os braços e inundam a carruagem com o seu esforço- esforçam-se os outros para não ceder. Ao longe, um senhor mal aguenta o ar que passa ao seu colega da frente- mais de metade arrepia: amanhã vai estar de febre.

Estou quente; fico rubro lentamente; tirem-me daqui, sou louco, e isto é gente.

216 (Back to Lisbon)

Há já algum tempo que não andava de metro, que não ouvia música sem sentido e notícias que só o tentam ter. Voltei à cidade que não sei ser minha, eis-me em lx e, não como antes, só.

Fico por pouco.

sexta-feira, julho 16, 2004

215 (A parede da frente)

A parede da frente é branca como a mesa e como as outras paredes; ela é a maior do meu quarto.
 
Uma vez desenharam o meu perfil, que estava convenientemente projectado, numa folha. Era para dar a alguém; não o fiz. Guardei-a entre outras para mais tarde a voltar a descobrir. Olhei-a e vi-me como os outros me veêm de lado: faltava tanto para ser como eu. Peguei em cores e pintei o que só estava a carvão; fiz traços e mais traços; defini as camadas que me constituiem.
 
Na parede da frente (a que está por trás da mesa)  estou eu.

214 (A mesa de guerra)

Um monitor. Duas colunas a alturas distintas mas as duas mais altas que a mesa. Um candeeiro sobreaquecido que tenta ser visualmente equilibrado. Uma impressora e folhas amontoadas sobre e a volta dela. Caixas de fósforo meio usadas fruto de noites de luxúria. Esferovite de alguma caixa, um perfume quase vazio. O livro azul que nunca uso - nem com dúvidas de português- os cd's que, depois de usados, só conhecem o vidro. As chaves de casa, a carteira, os lápis de cor e de cera e um velho preservativo.
 
Uma mesa. Um abrigo.