Mais um. O meu primeiro. (brainwasherpt@hotmail.com)

terça-feira, agosto 17, 2004

231

Os meninos gostam de histórias da carochina: divertem-se e não sentem o passar do tempo. Os adultos não diferem das crianças, só exigem outro conteúdo (digamos: com mais maturidade), com personagens mais realistas e de acordo com o paradigma da altura (sem saber seguem kuhn) ou então completamente fora da realidade. Peguemos na religião que uns seguem religiosamente e que, no fundo, assenta numa história mal contada e que sem fé ninguém acha verdadeira.

As histórias que imagino são outras: têm-me como personagem principal e, em cada sequela, contraceno com uma protagonista diferente; mas, como digo, não passam do que são.

230

O homem cria quando tem de criar

.

(E mais não digo)

229 (O último dia da rapariga engraçada que tinha a mania de dançar no bar e cujo nome desconheço)

Soavam os tambores de guerra. Ela dançava como se se entregasse à causa. Os olhos (fechados) favam mais força ao seu acto. Mexia-se com as batidas levando-nos com ela. Era a última vez que o faria.

228 (auto retrato)

O poeta que escreve, que conta com os dedos as sílabas incontáveis na cabeça pensativa. O poeta que escreve enquanto se torna calvo ajudado por ele mesmo. O poeta e o seu mundo às cores que sente.

227

Há cores que raramente se tocam. Passam por partes paralelas e, entre duas iguais, existe outra que não elas. É cansativo, é saudoso mas, na maior parte das vezes, é assim: as fronteiras a negro são intransponíveis. Porém, em alguns casos, dá-se um fenómeno deveras estranho (não, não se tocam cores iguais): duas estranhas fundem-se e formam um meio termo. Esta, por sua vez, só está adjacente àquelas que a formaram.

226

Por maior que seja a mão há vícios que não suporta. Os limites definimos às escondidas de nós mesmos. A mesa era retábulo a oficina do que ainda não conhecia. Distraia-se da música que não queria ouvir.

225

A escada era estranha. Parecia um desenho de escher sem perspectivas. Cada degrau tinha um tom de verde e era indefinida. A parede já não se via: era azul como o horizonte que já não tocava há algum tempo. No topo o verde era escuro, era certo; foi perdendo cor como o vermelho do seu vestido.

Com um olhar estranho fita o atrás do muro.

224

Mil e uma coisas definem um homem, mil definem o anterior e pelo menos outro. Pessoas, sorrisos, beijos e até números dizem quem somos. Olho p'ra um lado; alguém parecido olha para outro.

Somos tudo o que passou.

segunda-feira, agosto 16, 2004

223 (Le premier jour en tunisie avec Holiday en chantant "you're so easy to remember (and so hard to forget)")

Cheguei julgando-me distante do que fujo. Vi o sol que só a saudade arrefecia pensado que, em pouco tempo, me seria quente. Errei. Atrás do balcão estava um diploma escrito como falava com os seus. Mal o vi percebi que por outros me chegavas.

Ah! Desde que conheço o teu silêncio que o mundo me faz recordar-te. Em Lisboa a publicidade é cirílica, ao meu lado sentam-se pessoas que o segundo nome se apelida de patronímico. Não consigo não te lembrar.

Escrevo a três horas de voo de casa. Escrevo noutro continente. Estou rodeado de mesas de metal vazias; ao fundo oiço ou grilos ou cigarras por vezes interrompidas pelas músicas tunisinas que só me fazem desejar o sítio e o momento em que te conheci. Há poucas horas precediam-nas pessoas que também falavam o teu eslavo. Não consigo, não consigo, não consigo...

Olho p'ros lados e só me lembro de ti. Fecho os olhos e anseio p'lo que quase tive.

222 (Uma questão de qualquer coisa)

Detesto as pessoas que associam a determinadas cores certos sentimentos. Detesto-as; no geral as associações são comuns entre elas porém, comigo, isso nunca sucede.

A minha tristeza é verde; um verde diluído a conta-gotas como a esperança que se esvai com cada passo errado que dou. Se espero, instintivamente, choro.

O quente é branco como a delicada capa de tudo o que aspiro ter. Tão frágil e tão visível no fundo negro que centra.

O rubro é azul como o azul que me persegue e que me queima por dentro.

As cores que sobram são restos que só uso para enfeitar.


(O detestar não é para ser interpretado como tal).

221 (A forca)

Pesam mais as memória que surgem que o corpo que a afinal não mata.

220 ((Longo suspiro) Anos dourados)

Uma vez esperei-a no Carmo. A fonte estava, a meu ver seca; as àrvores ganhavam unm verde que a noite escurecia. Olhava para a porta do convento que, em parte, ainda está de pé:---------------------------------------------------------------------------------------------------------
Dessa vez esperei-a no largo do Carmo. A noite era agradável; a fonte ainda estava seca e as àrvores ganhavam um verde que a noite e as luzes de halogénio tornavam artificial. Eu estava sentado nas escadas que levam à porta do pouco que ainda está de pé; olhava-a e sabia-a intransponível.

De súbito chegou linda. Não me viu logo. Olhei-a com o olhar de carneiro mal morto que só mais tarde me receitou (senti-me tão bem).

Depois do jantar fomos. Estava tudo na mesma.

219 (A aventura no carro tom de cinza/The mighty four in the car of Miguel's mother)

A estrada levava-nos de uma ponta a outra da vila. A meio havia um pequeno trilho com as dimensões (falo de largura) do carro. Entrámos, alterados pela mente, com as luzes desligadas; avançamos pouco, ligámos o rádio e, quando a eugénia largou o machado, gritámos. Avançamos, mas só em nós mesmos: limpos por dentro éramos outros.

Saímos lentamente a apontar para o sol que deixámos de recear.

Limpos por dentro, éramos outros.

218 (Do corredor marista)

I

Ao voltar do norte lembrei-me da terrinha que p'la primeira vez vi aind'eu era infante de sonhos que, aos poucos, e por minha própria vontade, ficaram distantes de mim. Houve vezes em que voltei p'ra eles como o filho que retorna ao pai em auxílio mas, e só na última vez o vi, nunca fui bem recebido.
Hoje olho pa trás e tudo parece mais evidente. Sinto nostalgia; não sinto falta dos sonhos, sinto falta de sonhar.

II

Vi-a pela primeira vez tinha eu pouco mais de uma década. Era verde no meio do betão cuja superfície mudou ao longo da minha assaz infância. Era um abrigo e não cresceu como eu; por falta de senso, pareceu-me sensato.

217 (Outra vez no mesmo de sempre)

Pessoas , mais pessoas: ninguém para mim. Desconheço-os e nem querendo anseio fazê-lo. Gentinha colada, abafada por uma vida que nunca quis. Distraiem-se no túnel, ainda mais abaixo de tudo o que os pisa: na sua vida, menos é sinal de excesso.

Erguem os braços e inundam a carruagem com o seu esforço- esforçam-se os outros para não ceder. Ao longe, um senhor mal aguenta o ar que passa ao seu colega da frente- mais de metade arrepia: amanhã vai estar de febre.

Estou quente; fico rubro lentamente; tirem-me daqui, sou louco, e isto é gente.

216 (Back to Lisbon)

Há já algum tempo que não andava de metro, que não ouvia música sem sentido e notícias que só o tentam ter. Voltei à cidade que não sei ser minha, eis-me em lx e, não como antes, só.

Fico por pouco.

sexta-feira, julho 16, 2004

215 (A parede da frente)

A parede da frente é branca como a mesa e como as outras paredes; ela é a maior do meu quarto.
 
Uma vez desenharam o meu perfil, que estava convenientemente projectado, numa folha. Era para dar a alguém; não o fiz. Guardei-a entre outras para mais tarde a voltar a descobrir. Olhei-a e vi-me como os outros me veêm de lado: faltava tanto para ser como eu. Peguei em cores e pintei o que só estava a carvão; fiz traços e mais traços; defini as camadas que me constituiem.
 
Na parede da frente (a que está por trás da mesa)  estou eu.

214 (A mesa de guerra)

Um monitor. Duas colunas a alturas distintas mas as duas mais altas que a mesa. Um candeeiro sobreaquecido que tenta ser visualmente equilibrado. Uma impressora e folhas amontoadas sobre e a volta dela. Caixas de fósforo meio usadas fruto de noites de luxúria. Esferovite de alguma caixa, um perfume quase vazio. O livro azul que nunca uso - nem com dúvidas de português- os cd's que, depois de usados, só conhecem o vidro. As chaves de casa, a carteira, os lápis de cor e de cera e um velho preservativo.
 
Uma mesa. Um abrigo.

213 (entre dois posts)

Escrevo este texto depois de outro que não vou mostrar.  O facto de escrever este não implica qualquer relação com o anterior - só visto por mim. Apetece somente dizer que houve um salto que só eu compreendo: não quero explicar.
 
Não interessa.
 
Entre dois posts há mais que umas simples polegadas que eu nunca medi. Estão dias, estão horas, estão segundos e sinto-os de formas tão distintas. Por vezes os primeiros são como os últimos que, em alguns casos, são como os do meio. Há mais que o tempo. Há a forma como o sinto.

quarta-feira, julho 14, 2004

211

As despedidas só custam se implicarem o fim, não de um momento, mas de outros que estariam, a nosso ver, para vir.

O homem (sendo a mulher também um) vive porque tem histórias para contar e outras por viver mas, se o argumento das primeiras, na sua opinião, for mau, e/ou o prognóstico das segundas também o for, ele deixa, só por ele obrigado, de caminhar de um, ou para um, local onde ele so tem, ou terá, aquilo que não quer ter. Temos desejos e gostamos de os ver realizados: só por eles nos movemos. Claro que existem aqueles tipos que falam logo do altruísmo mas eles esquecem que é só o bem-estar de quem o pratica a razão da existência de tal substantivo.

É usual que alguns homens (não volto a referir como emprego esta palavra) gostem de outros. O que mais anseiam é a companhia - e tudo o que ela implica- do outro. Criam-se relações, traçam-se linhas rectas que vão definindo formas pintadas de maneira distinta por aqueles que participam. No final cada um tem um quadro e, ou se gosta, ou não. Há quem queira prolongar a tela e acrescentar traços, pôr mais cores mas, se o quadro do outro não expandir as suas linhas negras de tinta da china, esteticamente, fica tudo desiquilibrado. Aquele que pintou o quadro maior (não interessa se mais belo), distraido pelo seu processo criativo, não vê que não existe porporcionalidade entre as duas obras. O outro tem então que decidir.

O mais pequeno já está na moldura: preenche uma parede para mais tarde ser recordado. O seu autor tem então que decidir se avisa ou não o outro que já não tem mais a pintar. "O mais difícil é saber quando parar" disse-me uma vez o Teles: o mais difícil neste caso é dizê-lo já que, no fundo, qualquer homem gosta de ver que algo por ele é criado mesmo que, no final, ninguém olhe para a parede, não por um quadro, não por outro, mas pelos dois. Aquele que, não percebendo de arte, não gosta de ter, nem de deixar, memórias que que sejam incomodativas do ponto de vistar estético diz. Ao dizer termina todo o processo criativo e com ele cessam as reuniões de trabalho futuras: custa aos dois mesmo que de formas diferentes.

Repito:

As despedidas só custam se implicarem o fim, não de um momento, mas de outros que estariam, a nosso ver, para vir.

sábado, julho 10, 2004

210 O speedy diz

Há sempre um que vai. Fui eu.

quinta-feira, julho 01, 2004

209

Quando era pequenino queria ser grande, desesperava por isso. Hoje que o sou não dou importância nenhuma.

terça-feira, junho 29, 2004

208 De onde tudo começa

Tirei uma taça de gelatina do frigorífico. Não sei a que sabe, mas prefiro a laranja e foi essa que tirei. Já não comia esta sobremesa há algum tempo e, estranhamente, ao lembrar-me da minha primeira refeição no refeitório do meu colégio, inundaram-me memórias daquele tempo.

Entrei na pré-primária. Não gostei muito ao início (acho que até chorei). Rapidamente tudo mudou. Comecei a conhecer aqueles que, mesmo não tendo qualquer importância para o meu equílibrio nos dias de hoje, foram essenciais à minha formação como pessoa. Quem me aparou as lágrimas no primeiro dia foi a Ana Vera (nunca mais a vi), quem me deu a primeira sova foi o Gil o eterno protector do Luís (ainda o vejo), e o primeiro com que gozei foi o Pereira (vejo-o frequentemente). Este último usava suspensórios que eu passava os dias a puxar, irritávamo-nos frequentemente, mas hoje, puxando um pelo o outro, somos amigos.

Pouco ou nada fazia. Sempre fui solitário e entretinha-me muito inventando histórias, imaginando feitos. Por vezes tentava jogar futebol mas, desde que os meus olhos me transmitiram somente cores verdes durante meia-hora, devido a uma colisão com uma bola, que me deixei disso. Também havia um conjunto de ferrinhos que eu inúmeras vezes tentei tocar era mais fraquinho que hoje e só com um impulso de outrém conseguia chegar ao ferro mais alto: lembro-me que ficava tão feliz e, ao mesmo tempo, com vertingens - a ajuda era irrelevante eu chegara lá.

Hoje, se passar ao lado daqueles ferros, vou vê-los de cima; só me conseguirei pendurar se dobrar os joelhos. Com o tempo o que antes achava colossal passou a ser um simples brinquedo da infância. Cresci, sou outro, o recreio é outro, e os brinquedos também o são. Quando eu era pequenino nao chegava aos ferrinhos que hoje vejo de cima; lembro-me e tenho saudades.

quarta-feira, junho 23, 2004

205



Vês menos
mas vês;
e isso basta-te.

Tiraram-te a perspectiva
vês tudo plano
mas isso
nunca te interessou.
Tens o mundo
sobre ele cai o teu olhar
E isso basta-te
basta veres.



Penélope desfaz o manto
que de dia teceu.

Penélope esperava Ulisses
Ele se nao viesse
era na mesma esperado.
Penéope esperava
Ulisses tentava
chegar.

"Onde estás?"
-Grita ele em cada passo
"Onde estás?
Onde estás?
Onde...
Onde..."



Enquanto a procurava
Elas foram encontradas
surgiram entre as àguas
perdidas.

O seu canto chamava
Clamava ao Id...

Porque lhes resistiu?
Porque só que ela?



Sob a ovelha esconde-se;
Ela,
tão meiga,
não faz adivinhar.
Toca-lhe,
É macia
aproxima-te
aquece-te.
Por baixo esconde-se o lobo:
Come-te
Quer-te.



Ela amava-te
Deu-te a taça do néctar.
Era linda a musa
Omni (quase) sapiente;
mas tua via-la
de outra forma:
"dizias que não",
-Não que não possas-
mas assim achaste.

Viraste as costas
e foste.

Chorou,
Viu-te cinzento.



Queriam entrar na pedra
Esconderam-se na madeira que enformaram
Esconderam-se,
Não os viram,
Entraram.
Por dentro ruiu
o que se fechou.
são heróis
OS que ficaram.



Nos campos que o rei lavrou
o rei estrava prostrado.
Mãos ao alto,
a saudade que não é grega sentida
"Não deixo ìtaca
Não deixo Penélope"

Só depois da partida
os encontraste.



A bruxa era rameira
usou-te.
Fez o que antes fizeras
Sentiste-te o porco que foste
E que ainda eras.

Andaste;
esqueceste;
eras tu
de novo.



Gritava
Gritava por niguém.

Riam-se todos.



De que te servem as velas
se o vento
não sopra?
De que te servem os remos
se não há braços?
Revoltas?

De que te serve
o que não podes usar?

Olha,
olha o chão
Faz
o que podes.


207



O passado está em nós; só deixa de fazer parte do nosso dia a dia se nós o permitirmos, se virmos que o futuro somos nós quem o faz baseados no que pisámos e inspirados p'lo que nos pisou.

terça-feira, junho 22, 2004

124

Acumula-se no canto empurrada por memórias; prende-se -não é o momento certo e, no fundo, é tímida. Está à espera que eu esteja sozinho ("espera um bocadinho está quase"). Guarda-se: a conversa durou...despedidas sem retorno ("espera só mais um bocadinho está quase prometo"). Cheguei, falei...("n te xateies foi só mais um pouco"). Finalmente entrei, saiu e chorei.

terça-feira, junho 08, 2004

205 Algo fita do escuro

Fecharam a porta que eu só vi um lado. No exterior a escuridão, em parte, era consumida pela luz dos advogados que gostavam de mostrar que o eram; sentei-me e começou a espera.
O espaço foi-se reduzindo. Eu, tão maior que antes, não me conseguia alargar e, se me tentasse erguer, não iria além da tentativa.

Tentei escrever mas, pela primeira vez desde há muito, não tinha como o fazer...o silêncio e o nada que ele implica entraram em mim de rompante: quase que enlouqueci.

Abriu-se uma porta. Era o advogado que restava que saía e que com ele levava a luz. Tudo piorou. Os altos que eu já conhecia da parede que, aos poucos, aquecera passaram a existir só ao meu tacto: só ele agora me fazia companhia.

Um piano começou a soar melodias sem nenhuma relação. Quem tocava estava como eu. O escuro lentamente ganhou forma: o que já não via apareceu. Agarrei-me como se de outra pessoa me tratasse senti que outra qualquer me abraçava: no feérico a solidão cessou.

Entretanto fartei-me e com esforço ergui-me. Com o toque de um dedo surgiu a luz com um clac. Desci e, depois de falar com estranhos para matar tempo e de ouvir intimidades que nunca perceberei, voltei a subir. Repetiu-se o ritual até a porta se abrir.

Já não há mais a contar (e assim se findou uma história).

segunda-feira, junho 07, 2004

204

Quem me conhece sabe que tenho sempre onde escrever e onde desenhar: preciso de me expandir constantemente mas só quem me conhece o sabe.

Todas as folhas que escrevo ou pinto são parte de mim; se as dou é porque me estou a dar e só me dou a quem eu julgo gostar (há casos em que me arrependo).

Tenho um caderno que tinha 120 folhas. Só me lembro por imagens.



quinta-feira, junho 03, 2004

203

O Sidoro está triste e embora, numa primeira análise, tal sentimento resulte do output do exame, não residem só nesse ponto as suas causas. Em termos gerais nada está como ele acha que deveria estar: está cansado de tanto e está cioso de()mais.

Peguemos no dia de hoje. O exame (até) correu bem mas, logo de seguida, um conjunto de situações aproximaram do piso o que, acima do rodapé, já estava. Não, não foi a fralda dentro das calças (até o elogiaram por isso), foi o silêncio pautado por raciocínios inconstantes fundamentados em nadas que do silêncio provinham; foi a reunião de merda (e este adjectivo é o que melhor se aplica) acerca de algo que as pessoas falam sem saber.

Peguemos no dia de hoje. Esqueçamos por instantes os que lhe antecedem. Peguemos no dia de hoje...Peguemos e esqueçamo-lo como o resto. Como disse a que tem meu sangue "Anima-te".

202 (errata à errata)

Ou então Sidoro não escuta.

201 (errata)

Os posts anteriores são uma simples criação da mente artista do autor deste blog. No fundo ele não se considera inferior apresentando até uma auto-estima por vezes corrosiva. Porém é isso que infelizmente ele transpõe; os outros, incapazes de o perceber, exigem que seja ele (sim só ele) a compreendê.los. Não considera o fiel leitor tal requerimento ridículo? Sidoro é o sidoro, sidoro até gostaria de mudar um pouco de ficar mais ao alcance do comum; mas não consegue.

Há quem alegue que é mais fácil descer um degrau que o subir. Mas, se as escadas forem descobertas, quanto mais alto estivermos melhor será a nossa vista. Por que motivo descer se só com a subida o que está mais baixo ganha? Assim fala sidoro.

Sidoro gosta. Sidoro se diz que gosta é por que está a ser sincero. Se Sidoro se comporta de uma maneira estranha é porque Sidoro assim é. Se gostam de Sidoro têm de gostar dele da maneira que ele é tal como ele gosta de quem gosta por gostar da maneira de quem é gostado.

Se Sidoro pergutna é porque não sabe. Se Sidoro devia saber e não sabe digam. Se não respondem ele nunca vai saber. Sidoro escreve mas escreve só sobre o que ele sente e muitas vezes, antes de estar certo, Sidoro não sabe que está certo e, antes de estar certo, não escreve sobre o que sente. Agora não exijam que Sidoro perceba o que sintam, porque se lhe custa perceber o que sente e resolve essas dúvidas perguntando a si mesmo (porque é ele mesmo que sente), imaginem o quão moroso é o processo se às suas questões não encontra resposta.

Embora Sidoro inquira e insista nas questões raramente encontra respostas. O que sucede é uma rebaldaria: chatices, discussões, gritos (mesmo que inaudíveis), e estaladas (na maior parte das vezes mentais). Sidoro chora por dentro: "por qu'é que tenho de magoar aquela que me importa?Por quê?". Quantas vezes não tentou responder a esta questão, quantas. Numa fase mais pessimistas as respostas foram aquelas que antecederam este post e que vos digo são ridículas. Porém hoje em dia Sidoro percebe que o problema está na falta de diálogo que, para Sidoro, é essencial.

Portanto advirto. Se Sidoro pergunta, tentem responder. Se Sidoro pergunta é porque precisa de saber. Se Sidoro anseia por uma resposta é porque não quer confusões.

200 Resumo (é o post 200 merece-o)

Do alto do monte, algo ou alguém superior, nunca em tom de profecia, proferiu :
-Azar daqueles que o amam. Pena daquela que é amada.

(o "o" sou eu)

199

Há quem pergunte se eu tenho auto-estima. Todos ouvem que já houve.

198

Detesto-me. Incoscientemente sou má pessoa (isto se o for).

197

Percebesse menos de números, percebesse menos de contas. visse o mundo, visse as pessoas.

segunda-feira, maio 31, 2004

196

Um dia fechei-me num cacifo verde que ficou cheio de mim. Esperei ansioso que me mostrasse o que por ranhuras eu não via. Eu era um bouquet, um cartão colorido... Eu era e, desta forma, esperava.

Não sei quando chegou; só me lembro que não acreditou: era bom de mais para ser eu.

sábado, maio 29, 2004

195

Há janelas que têm escrito "janela de emergência" e, para as usar, temos de recorrer ao martelinho vermelho - isto se ainda lá estiver.
Estas janelas já me salvaram tantas vezes (Quantas vezes não passei por elas). Protegem-me do muda em segundos, do que me dão a conhecer. VEjo o mar, vejo a terra; vejo o sol e vejo o nada que outros como eu fizeram. Vejo a noite, vejo o dia; vejo dor e alegria: vejo o que faz o mundo e salvo-me de mim mesmo...nunca parti um vidro.

194

Entrei no comboio e fui recebido pelo som de um trio cigano (arranjo para pandeireta, guitarra e acordeon). Nunca nenhum branco me recebeu assim. Pediam, mas o que deram não fora suficiente para justificar a troca.

193

A beleza de um ser cresce com a sua entrega.

192

Porque o braço está inserido no corpo onde se insere a mente, é visto como o resto, julgam-no demente. Veêm o suporte, julgam a estrutura: acham-na ridícula - não veêm que ela é que é suportada. O corpo move-se de acordo com o pensamento, o braço cria porque o resto sentiu.

Só julgam o corpo. Ridículos! Percebessem o que ele encerra, vissem que não faz porque o que se quer é grande: vissem. Fossem outros que não ridículos...fossem assim.

191

Tudo nasce de uma parceria, mesmo que seja vã e entre partes do mesmo. Se há noite é porque há sol e porque a terra gira; só há dia por isso. Só se ve porque há algo a ser visto e o resto se aplica a cada sensação; só se sente porque há algo a ser sentido.

Tudo nasce de uma parceria: tudo. O mínimo contacto pode gerar a magnificiência. O vão pode trazer o que sempre se quis.

Eu sinto,eu penso no que sinto e cada membro cria. Tudo nasce de uma parceria mesmo que seja vã e entre partes do mesmo. (Até este texto)

190

Meu caro, a vida continua até deixar de o fazer. Quando pára já não volta (salvo excepções milagrosas).

quarta-feira, maio 05, 2004

189 (A bela "adormecida")

Uma dose quase letal de xanax fez com que o seu sono se prolongasse. O príncipe surgiu do nada com adrenalina que quis dar e a química despertou-a. Viveram quase felizes; romance nunca houve.

188 (O saber pagão)

Disse a fada: "as princesas não se importam com isso pá"

187

Ao abrir a flor tudo ganha e perde significado. Depois da semente crescer (os passos não interessam) forma-se um botão; o esforço foi grande e não importa de quem - cresceu com carinho.
No momento certo, quando os factores são ideais, o botão abre-se e mostra a cor que encerrava. Tem de estar tudo certo a beleza não pode ser conspurcada (tem de se mostrar por ela nunca pelos outros).
O processo de quem estima atinge a sua plenitude; num instante revela-se o resultado de momentos. Feliz quem trata vê que culminou e, depois do êxtase, pode repousar - há outras plantas que o esperam.

186 (Sigh!)

O que diz um suspiro ouvido do nada? O que diz? Sonhos que caiem, alegrias instantâneas, dúvidas momentâneas, simplesmente saudades.
Um suspiro, um instinto não animal...Ai, ai...O passado, o que tenho, o que terei...Um suspiro diz tudo o que importa.

185 (Sobre a matemática, sobre[]tudo)

A não experiência não implica falta de jeito. O treino, como é lógico, ajuda mas há coisa que são inatas.

184 (Cálculo prático)

Apeteceu-me escrever enquanto o senhor professor falava da hessiana orlada e de optimizações. Para o jovem pedagogo era tudo tão simples; com um sistema e uma matriz determina se um ponto estacionário é um máximo um mínimo ou outra coisa qualquer.
Por mais que leia ou aprenda nunca terei a sua genialidade e savoir faire: as contas são rápidas quer tenham ou não quadrados e a matriz é logo preenchida (mesmo que o faça não sei interpretar determinantes).

Apeteceu-me escrever. Que mais faço com gosto? Aprendo merdas que não utilizo - não há mulheres orladas, não há um lambda que me auxilie. Escrevo porque me apetece, escrevo porque não me optimizo.

183

Não tinha nada para fazer; tudo havia sido desmarcado na véspera. Chegou a casa e meditou como vira nos filmes (nesse instante queria ver um) mas de nada lhe serviu.
Olhou a cama; deitou-se: só viu a luz do dia seguinte.

terça-feira, maio 04, 2004

182 (A receita)

Gostava de escrever quando quisesse. Escrevo só quando me apetece: quando saio de mim.
Podia dizer que tal acontecimento depende do tempo, mais especificadamente, da humidade relativa do ar mas, se o fizesse, estaria a ser muito redutor e os erros seriam exagerados.
De facto escrevo, melhor, apetece-me fazê-lo quando muitas variáveis se conjugam. Não interessa quais. Se soubesse, se quisesse, simulava as condições e, no final, tinha um livro.

181 (Depois de tentar começar uma)

Todas as histórias têm um começo; a partir dele tentamos adivinhar o resto e supômos o final. Se tudo corre como julgámos sentimo-nos um pouco desiludidos com o que não nos surpeendeu.
À medida que nos afastamos do nosso nascimentos fica cada vez mais fácil prever (correctamente) o desenlace - pudera;já ouvimos tantas histórias e já vivemos tantas outras: com a idade é mais difícil a surpresa.
Comigo - ou melhor - cada história que me tem como protagonista ou até mesmo como personagem secundária tem o seu pouco de estranho: acabam sempre por me surpreender.
Por vez gostava de ter uma história normal, de saber o que esperar dos outros (daqueles com quem convivo). Os sinais seriam por uma vez o que nunca foram: sinais. Os sorrisos seriam sorrisos, as mãos enlaçadas diriam o que se diz quando se enlaçam as mãos. Se assim fosse ficaria surpreso.

180 (Maria)

Gritou. Era a hora do almoço; estava servido. Gritou; não foram p'ra mesa.

179

Se fossemos sinceros não desdobraríamos os pensamentos em folhas de papel - nem sequer pensaríamos no assunto.
Se fossemos sinceros saberíamos - não era necessário perguntar.
Se fossemos sinceros não existiriam poetas - não se embelezavam as palavras, acreditar-se-ia simplesmente.

Sou poeta;não sei; digo de forma pensada.

178 (A consciência)

- Vamos à teórica!
- Se adormeceres diz-me o que interessa.

177 (Citando Teles)

"Se não tens mão-de-obra como sobes o produto." (Falemos no geral)

176

O coro cantava o que mais ninguém via. O coro cantava o destino. Os seus olhos estranhos de uma forma estranha olhavam o vazio - viam o que mais ninguém via. O coro cantava, o coro dizia - o que só ele sabia mais ninguém via.
Monocórdicos, atulados, abraçados os pensamentos; sofrimentos, alegrias em cantigas anciãs.
Ouve-o, escuta-o, perscruta o teu dia; o que ele canta o que ele diz é o que só ele sabe. Vai-te, parte, esquece o finito: o coro é antigo mas sabe o futuro.

175

Os olhos desencontrados eram amostras de raiva, de rancor que crescia de uma forma lasciva: os extremos tocaram-se.

174 (A cadeira do Eero)

Desde que vi uma que anseio ter um conjunto delas. A sua forma de flor (de tulipa), a sua perna tão esguia, deliciam o meu instinto de equilíbrio estético. Desde que vi aquela cadeira da Köln que sei que vou ter uma, melhor, umas delas.
Podem dizer que é uma cadeira como outra qualquer; que só tem um forma bonita; até podem acusá-la de não encaixar bem nas costas e de me entortar. Não importa: é linda, e, p'lo que parece, ninguém, além de mim, a vai usar.
Ocupa espaço, preenche-o bem. Sempre faz alguma coisa.

173

Já faz algum tempo desde a ùltima vez que escrevi. Podia inventar motivos parvos que, por o serem, não teriam qualquer significado porém cinjo-me a dizer, e creio que de uma forma sincera, que não consigo, que não o fiz porque não me apeteceu (fazê-lo).
Detesto criar linhas por obrigação. Essas não têm vida. Tudo o que acumulo neste bloco de notas tem origem natural: o esforço que houve era o que tinha de haver, nunca me abriram o ùtero.

Escrevo o que quer ser escrito, não o que devo escrever.

terça-feira, abril 27, 2004

172 (O beijo/O sonho)

Tocavam-se,
Os olhos cerrados olhavam-se
- Um deles era feliz.
Abraçava-a com o carinho que tão poucas vezes deu.
Abraçava-a;
Retia-a;
Não a queria perder.

171 (Spring)

O verde primaveril corrompe o vermelho da carne.

170 (Underground)

As veias da cidade carregam células mortas que teoricamente são a vida. Não comunicam entre elas: são cada vez mais umas e o resto não interessa.
As veias da cidade carregam células mortas que, de uma forma agregada, se deslocam. O tempo rege-as, o tempo dit a o que cada uma delas faz: estão mortas por isso, a vida que lhes resta não é nada.
As veias da cidade carregam células mortas. Eu sou uma delas. Sou levado de um extremo a outro em menos de uma hora. Sou uma célula morta que o tempo ditou.

domingo, abril 25, 2004

169 (You may call it happinness)

O tempo, o tempo é como o concebemos. Há quem diga que é triste, cinzento e mau mas, quando o faz, não percebe que esses adjectivos são somente seus. O céu mais negro, o mar mais agitado pode ser, se o quisermos, o que de mais belo vimos.
Aos pouco abdico do que me entristece: do que faz com que a chuva corroa e que o sol arda. E, à medida que o faço, tudo ganha outro sentido. Percorro sempre o mesmo caminho mas é cada vez menos o anterior. As árvores agora querem acolher-me na sua sombra; o sol anima-me e, como o verde, parece que é meu...
Esqueci a ânsia, o desejo que uma mão se enlace. "Nada espero" o que me dão basta.

sábado, abril 24, 2004

168 (O dia do ex-namorado árabe)

A chuva cessou de cair. Estava sol. Acordei mais tarde que habitual - não ter aulas é uma benção. Lentamente levantei-me ao som de árias que, em vão, tento cantar. Ergui os estores; entrou o que já não via, o que, com o calor, senti. Pressenti algo de novo...
A água quente parecia que escorria mais delicadamente em mim. Sob ela passei mais tempo. Vesti-me e fui chegando 3 minutos antes da partida (Que sorte!).
No comboio tentei fazer o projecto que me mostrara mas não me lembrei das medidas. Cingi-me a olhar o mar mais azul, o forte que quase toquei e a lembrar-me da ilha que antes havia.
Cheguei a Lisboa na hora certa, ofereceram-me um livro que não consegui ler. P'lo menos alguém dá linhas, não interessa o que têm: que alguém leia. O destino, supostamente final, vi-o dois minutos depois do combinada, mas ainda esperei ao som do piano que mais gosto.
Passeamos, rimos e até lemos. Foi o que me bastou. Despedi-me como uma criança imberbe que nunca havia pisado aquele solo.
A cidade, como o dia, era-me outra. Voltei, desta vez, feliz.

quarta-feira, abril 21, 2004

167

Gosto dos dias que são como eu: aqueles dias em que o céu está cinzento e chove mas não muito.
As pessoas na rua são poucas e, na maioria, protegem-se sob alguma capa. Andam a correr como se menos se molhassem pensando somento no calor do abrigo.
O piso encharca-se mas não se chega a lavar: a água que voltará a subir acentua somente o quão conspurcado está. Há uma réstia de vento; o mar está escuro, talvez agitado.
As pessoas na rua são poucas e, as que vejo, estão longe: não se querem diluir numa chuva que corrói, não querem isar o que veêm estar sujo. Detestam o que este céu trouxe esquecendo que só falta o sol.

terça-feira, abril 20, 2004

166 (Regret)

Sei o resto que sei estar feito e tudo o que por fazer ficou. Resta-me esquecer. Tudo sei: não faço.

165

Transformo o que importa de uma forma exagerada e digo-o. Ninguém me crê.

164

Depois de me expôr sinto-me a vulso.

segunda-feira, abril 19, 2004

163 (Um beijo)

As sombras passam a ser uma só contra a parede branca. Entregam-se tão pequenas e surge uma maior; movendo-se exapande o que é e as sensações que desperta.
Tudo principia quando se encontram no escuro. Se for sentido os olhos cerram, como se não merecessem o que se dá, tudo o que se anseia naquele momento que parece não ter fim. A fronte move-se comovida alimentada do que recebe.
Ah! tão desejado é aquele instante; e quem o quer espera mesmo que anseie: tem de partir de dois - dois lábios não chegam e, sozinhos, de que servem?Quem não o faz mente, não gosta, só oscula por prazer. Por vezes, estupidamente, há quem receie; mas se for sincero porque não o fazer?O outro mesmo que não o queira, se souber, percebe.
Imagino o seu beijo. Estremeço. Não procuro um sabor, já gosto sem o conhecer...Quero sentir que sente que o que sinto é sincero. Quero, por uma vez, me dar.

162

Procura-se. Caso sério.

domingo, abril 18, 2004

161 (O meu primeiro texto de duas páginas)

Acho que muito nunca me esforcei. Sou incapaz de o fazer...

160 (O das 8)

Apetece-me chorar. Estou sentado no comboio com as costas viradas p'ro meu destino; tenho à minha volta no máximo 52 pessoas sentadas e 80 de pé: nunca me senti tão só.
Lá fora não vejo ninguém. O dia está tão cinzento e o mar está tão feio. P'lo menos cá dentro não faz frio. Tremo. Conversas animadas que não percebo, conversas que hoje não conseguiria ter: ouço-as e ainda mais me apetece.
Desenho. Imagino algo diferente, sujo a folha com imagens similares. Figuras que olham a mesma direcção com o olhar certamente meu.
O comboio pára, mudam as pessoas. Estou na mesma. O que me dizem?De que me servem?São mais uns que passam e v
êem e que, por vezes, falam entre eles. O que sou eu aqui?
Está cada vez mais escuro. Perco aos poucos a vontade inexistente de sair, mas não posso: esta viagem tem um fim.

159 (O meu livro de rascunhos)

Abri ao calhas o único caderno que tive na faculdade. Está velho e tem mais rascunhos que matéria. A página que vejo tem linhas que me são estranhas: a grafia tão desenhada com uma inclinação perfeita estudada de certo com primor, como tudo o resto que parte de quem a escreveu.
Dois nomes, são dois nomes escritos separados por uma linha em branco. Sei o que elas dizem e, por isso, consigo-as ler; se assim não fosse teria de aprender russo ou, como já fiz, chatear imigrantes do leste.
O nome dela mais curto que o meu está em cima (de que outra maneira poderia estar?), encabeça uma página desenhada à pressa com um traço amador. O meu, em baixo, com partes mais pequenas e muito mais complexo. Uma seta no meu primeiro nome transforma o manuscrito em máquina: é o mesmo com outra forma.

sábado, abril 17, 2004

156

Hoje enfrentei um fantasma. Não insinuo que se trate de alguma coisa velha ou medonha é porém algo que teve a sua importância e que, de repente, deixou de a ter. O que mudou, se quisermos ser simplistas, é fácil de ver; sou complicado de mais para ter tal ponto de vista e, por isso, penso (De) mais no assunto.
As pessoas mudam conforme o que lhes acontece e cada pessoa muda de uma forma diferente. Que aconteceu algo estou certo o que mudou, mesmo que temporariamente, em mim eu sei; custa-me é perceber o que mudou ou muda nos outros. Os extremos tocam-se disse alguém mais sábio que eu e confirmo-o experimentalmente. Passámos de um ponto para o outro. E querendo acreditar na diferença entre quem interagiu não se vê que a diferença está em nós em momentos distintos.

157 (Ou então)

Raras vezes estou certo das minhas atitudes e tão menos vezes as considero dignas. Custa-me ver que estou rodeado de pessoas tão mais decentes que eu: pessoas honestas, sinceras, solidárias, trabalhadoras...fonte dos valores que a ética promove.

Ou então não.

158

O dia começou da pior maneira. Passava da meia-noite e já ela me desprezava. Deitei-me as três cansado de esperar por uma resposta. Levantei-me às seis como sempre durante a semana de aulas. Arranjei-me corri e perdi o comboio de antes das sete: até nisto nada me deram.
Esperei o outro comboio e mal entrei surpreendi-me: um piano é tocado de uma forma surpreendente (Seria Chopin?Não interessa); olho para a rapariga mais gira da carruagem e (espanto!) escreve como escrevo num bloco como eu já tive - tem somente um ar mais organizado, é mulher. Sento-me e, p'la primeira vez desde que frequento estes espaços, senta-se a meu lado uma rapariga que me parece intrigada com aquilo que escrevo e faço. Muda a música, parece jazz; a outra continua a escrever e, de soslaio, constato que ainda me observam...fico, de certa forma, feliz.
Porque raio me trata ela desta maneira?Merda, irrita-me. A música passa a ser +/- parecida com a de um filme adulto série B. Quer dizer, não me irrita assim tanto é mais uma questão de ego: são sempre as que mais me dizem que menos o fazem e, estranho, será por gostar delas que as ofenderei?Nem quero pensar nisso, está-me a correr bem o dia...
O comboio saiu de Alcântara e já não há mais a escrever: há um primeira vez p'ra tudo.

quarta-feira, abril 14, 2004

155 (Sorry I'm late)

Atrasei-me. Não acordei a tempo e cheguei tarde à estação. O comboio, esse maquinalmente acertou com as horas e fez com que eu esperasse por outro. Já é tarde; pago as consequências: vou em pé.
A minha carruagem (a penúltima) quase sempre vai semi-cheia, mas há um período em que é raro estar vazia. Parte em Cascais; compõe-se de pelo menos 5 zonas diferentes; chega à minha e não há vagas a preencher. Pago as consequências: vou em pé.
Tento escrever e em vão - não consigo suportar o suporte- e desenhar ainda é pior. Ah! logo hoje que estava tão rica a carruagem...A culpa é minha; era tarde. Pago as consequências: vou em pé.

terça-feira, abril 13, 2004

154 (a bit late...)

Um dia que, por ser como os outros, não é igual a nenhum outro.
Acordei por mim mesmo sem saber o que viria; incauto preparei-me. Acabei por ir a lisboa: fui ter com a Maria que, como eu, fixa momentos mas com imagens. O final é o mesmo mas o caminho difere; de resto nem há parecenças. Um é alto, um é fino demais, um tem o cabelo encaracolado, um usa saias e gosta de morenos.
O dia só acabou de noite depois de o cego cantar. O que fiz a seguir não interessa, só interessa o que fixei.

153 (jessica?)

Na sua pele alva esbatia o negro de um luto. Folheava as folhas com côr marcando-as com lágrimas transparentes que, sem querer, ouvi.
O comboio não pára:não a volto a ver.

152 (This is me then)

Não é difícil enumerar as pessoas de quem gostei porém é-me impossível dizer porque motivo gostei delas. Tudo começa com algo tão estranho como uma palavr, um gesto ou um mero olhar...sou um bocado estranho eu sei, mas só um gajo estranho escreve sobre estas merdas como eu faço.
Há uma linha comum entre essas pessoas: não sei como as conquistar. Alguém me dotou da capacidade de resolver problemas de álgebra, de perceber poesia, mas deixou em branco a área de compreensão e sensibilidade (em relação às outras pessoas). Muitas vezes chateio-as com os meus constantes porquês; se o faço é porque não sei o que despoletou certa reacção, certa expressão que estranho..."O que terei feito?O que fiz?" Antes de colocar questões a outros já eu as tentei resolver e, como sempre, em vão.
Sou um tipo aluado, tenho o meu mundinho. Elas convivem comigo e sabem-no, mas depois não compreendem que eu não perceba por completo as suas atitudes; peço desculpa quando nunca o devia ter feito.

151 (no comboio nº qq coisa)

De férias o trajecto é o mesmo: às vezes o trabalho é mais forte. Velhos compõem a carruagem e fazem-me sentir a nostalgia que ainda não tenho.
À minha frente, por algum motivo, lê a bíblia uma pessoa que me parece interessante p'ra quem lhe acha interesse. Atrás de mim uma senhora loura fala com outra, que eu não vi, na língua que alguém já me deu e que eu nada percebi.
"Desculpe menina da frente sabe-me dizer por que é que o que se quer é sempre díficil?". Claro que não perguntei; mas a resposta teria algo de divino.

150 (Depois do nada)

Ás vezes parece que caímos que, sem paragens, nos aproximamos do abismo. A aceleração vertiginosa dá-nos uma velocidade cada vez maior: em pouco tempo quase fundimos.
Tentamos gritar mas somos mais rápidos que o som; nem força temos para esbracejar mas tentamos.
De repente cessa a queda e não dói como antes. Fatalmente apertaram os braços e, dentro deles, deram-nos o conforto que, não sendo estranho, é raro. Mas antes, antes onde estava?

149 (O...)

O púlpito era nobre: tinha uma faixa colorida. Preparaste de véspera o discurso com o teu conselheiro quase amigo. De uma forma qualquer ias mostrar o que estava cuspido. Abriste a boca e tombaste um pouco para um dos lados - e dizias tu que estavas neutro.
Falaste, falaste, falaste...e até houve quem te ouvisse (não interessa se por pouco). Acabaste. Acordou a maioria. Fez-se fila p'ros bolos.

segunda-feira, abril 12, 2004

148 (it's mine; do not touch)

Rubro; é assim que fico quando alguém toca no que eu fiz ou faço. Sou como uma leoa que protege a sua prole por mais insignificante que seja: é minha e saiu de mim.
Fecho os punhos como se quisesse magoar alguém mas não os uso felizmente. Olho o chão e uso a minha voz da maneira que eu não quero (sim é instinto) e grito, e grito, e grito, e grito, e grito, e, de cada vez que o faço, magoo um pouco quem me rodeia.
Acabo sempre por encontrar o que procurava mas já é tarda: há alguém que chora. Sem saber tenho a culpa. Arrependo-me mas tudo volta a acontecer.

147 (Let's go shopping)

Na rua que subia estava quase no príncipio; na que desce estava no fim. O caminho que eu percorria era iluminado por tipos cobertos de lixo que, com malabarismos dignos de Baco, cravavam moedas para aumentar o teor de algo no corpo.
Ela estava resguardada à frente de outra porta que se fechou. Acompanhava-a uma guitarra triste como ela que olhava o chão.
Na nota certa soltou a sua voz tão mais velha que ela carregada não sei do quê. Principou um fado; não interessa qual - "cheira sempre a solidão". A cabeça p'la primeira vez olhou o céu como se pedisse ou mostrasse qualquer coisa a quem lhe teceu o manto.
Finalmente acabou; chorou; estava tudo na mesma. Se as moedas chegarem, se mais nada a deixar, ela volta porque pode.

domingo, abril 04, 2004

146 (Digamos personalidade)

O carácter existe; só se manifesta porém quando as situações o exigem. Se outros o querem ver devem provocá-lo seriamente: ele alia-se à modéstia e, digamos, à compaixão. No fundo não quer arranjar discussões desnecessárias mesmo que outros as considerem óbvias.

O carácter existe mas forte não se mostra; quer parecer fraco. P'ra quê chegar só por chegar?(não lhe faz sentido).

O carácter existe mas não sabe quantificar a sua força e, quando se solta os sentimentos acima referidos, é atraído pelos seus opostos: pode magoar aqueles de quem gosta e e pode não remediar.

Ele existe mas julgou que não precisava de o conhecer. Mesmo exigindo retraíu-se e, agora que se manifesta, vê que é tarde: o que o carrega é um brinquedo (se o houve já não há respeito).

sábado, abril 03, 2004

145 (Is it solow 1?)

O sofrimento cresce a uma taxa S e a autoestima detiora-se a uma taxa A.

144 ("I'm always true to you darling in my fashion")

Às vezes cansados cansamo-nos: só nos resta partir.

A espera prolonga-se, a paciência reduz-se. Os que nos rodeia aos poucos deixa de ser novo; já conhecemos tudo e quase todos - mesmo os que ainda não passaram. Fixamos algo, não interessa o quê, desdobramos, inventamos e até criamos enquanto não temos mais que fazer...os segundos acumulam-se enquanto o vento leva o que exponencialmente deixa de restar.

Partimos e esperámos.

terça-feira, março 30, 2004

143 (then the ?)

A interrogação que tão laranja se apresentava contrastava com a evidência verde do resto.

segunda-feira, março 29, 2004

142 (yes doctor)

Hoje diagnosticaram-me esquizofrenia. Comecei a pensar nisso e cheguei à conclusão de que provavelmente o sou. Vivo no meu mundo; tento fazer com que seja como eu quero; não tenho pejo em cantar o que me apetece, em desenhar o que eu anseio ver e em dizer o que vai em mim.
Hoje diagnosticaram-me esquizofrenia. Compreendo. Não sou como eles (digamos os outros). Eu sou eu e como dizia a Florbela eu como ela sou alguém. Quem não me compreende é que, no fundo, tem problemas.

141 (At the chinese place)

Estavas à distância de uma mesa que se alongava ao compasso das palavras tremidas que eu dizia. Olhavas de uma forma estranha o que eu não sei; a sopa estranha, aos poucos, arrefecia. Acabei; cruzei os talheres. Perguntei-te o que não te apetecia dizer.

140 (ataraxia)

Há coisas que começam inesperadamente. Porventura não serão quase todas? Creio que sim. Porém umas fazem.no inexplicavelmente e essas são sempre inesperadas.
Uma palavrafoi uma palavra que bastou para tudo ter início; as que se seguiram somente confirmaram o que já tinha surgido. Não há explicação possível - foi uma palavra que se ouviu.
Podia ter começadop com um olhar: até considero mais comum. MAs quis, o que eu não sei, que assim não fosse. E, embora goste de ver quem tal palavra proferiu, não foi pelo olhar que tudo começou (ah só o que me disse me interessa).
Que seja como é; que saiba ao que sabe: isso é quase nada. Se não dissesse nem isto existiria.

domingo, março 21, 2004

138 (no concerto)

A droga da mente é ela própria. O raciocínio exige cada vez mais de si. É um processo que começa e só termina quando uma nova conclusão passa a ser arbitrária.

Nada é fixo: o pensamento por isso também não o é. Caminha numa direcção até ver que esta não lhe serve; chega a um extremo e, de seguida, procura o oposto ou outro que lhe seja adjacente.

E continua, e continua, e muda, e muda; continua sem cessar. Cada vez estou mais farto mas os juizos são necessários que arbitrários sejam.

Os ouvidos já me doem. Os neurónios estão doridos.

137 (no concerto)q

Se eu me deixasse levar pela música...Não o faço por estupidez: racional não me consinto e só isso quero.

Se me deixasse levar pelos momentos que me deste. Se não fosse racionalmente parvo, cobarde e até mesquinho...

Se me deixasse levar p'lo que sei ser certo

136 (no concerto)

Eles queriam morrer felizes: eram tristes - davam as mãos como se servisse para alguma coisa.

Pediram que lhes desse o que nunca tiveram: sorrisos.

Ele ergueu o braço. nenhum deles preocupado. Nenhum deles sentiu.

sexta-feira, março 19, 2004

135

Escrevo enquanto fumo um charuto pensativo. O mar está ao fundo e nem o vento interrompe este meu ritual. Em Cascais as luzes acendem-se com o acumular de linhas. O horizonte (ao qual nunca se chega) aos poucos perde o laranja, o pouco que resta, e ganha o tom azul.

Escrevo enquanto o tabaco arde de uma forma pensada pensando que o faço por instinto. O pouco do dia que tive passei com o meu passado: passei-o com ela (a primeira). Aos poucos vou-me redimindo. Errei, sei que o fiz: o ouro era-me cobre e a eu parvo só o vejo agora. P'lo menos alguem consegue ser feliz e isso faz-me, por pouco, feliz.

Escrevo enquanto se acumulam as cinzas. Desde há muito que não estou de facto sozinho em minha casa. Sinto-me só, é certo, mas estou sempre rodeado por alguém mesmo que esse alguém esteja no quarto ao lado. De facto, sozinho raramente estive: parece que tudo é mais meu; posso pensar, escrever, gritar fazer as merdas que quero sem ter alguém a perguntar a mar vir: é bom.

Escrevo enquanto há algo por arder. Tenho por momentos o que quase compõe o meu sonho. O espaço é meu; faço o que quero: estou sozinho. Mas falta alguém: ela (e não a primeira) está tão longe, não faz parte deste meu mundo que, enquanto puxo, fica mais cinzento.

Escrevo enquanto estiver rubro. Pedi tanto e tanto me deram se de facto há algo que dá. Pedi mas não consigo crer que me enviaram: é tão perfeita - até mais do que julguei; tem tudo, é um sonho que sonhei consciente mas a consciência é pessimista e p'ra ela eu sou péssimo. Por nais que me mostre não me diz ou então não ouço.

Escrevo enquanto não é curto. A esperança resta e morre antes do coirpo que morre por não a ter. Talvez consiga. Talvez se apague antes do fim. Talvez me levante antes de arder.

Já é de noite e estou sentado. Apagou-se. Não há mais a escrever.

quinta-feira, março 18, 2004

134 (another one)

O meu ser tem baratas na cabeça: foi assim que ela me descreveu psicologicamente. Foi perspicaz. De facto acumulam.se questões cujas respostas me são deveras estranhas (não estão em mim)
Tudo começou com um uma conversa estranha numa noite que foi mais longa. COntinuaram os encontros que perderam a casualidade, acabámos por enlaçar as mãos (nunca pensei que um dia vou dar o obulo).
O que vi e espero continuar a ver não foi base de tal acto. Não me chegava para uma entrega cada vez maior: de que serve a fachada se a casa não nos alberga? Demorei, esperei- nunca impaciente como ela, não perspicazmente me definiu. Certo estendo a mão que, aparentemente,acolheu.
Encostou-se ao meu ombro enquanto ele abraçou a cruz. Mais não me podia dar mas nada do que dela advém me é certo. A melhor das minhas intenções revela-se uma ofensa; não sei como reagir.

quarta-feira, março 17, 2004

133 (o artista)

Escrevo, pinto e desenho. Recorro aos mais variados suportes para mostrar o que sinto - entendam que não considero que o faço bem: mais que humildade tenho noção do real.

Faço-o porque preciso. É-me inato; às vezes desperto do que me rodeia e preciso de fixar esses pequenos momentos, não interessa se bem ou se mal: fixo-os. Adormeço de seguida.

Há quem diga que sou. Mas não, nunca serei um artista: não fodo aquelas em que me inspiro.

128

Uma casa não é o espaço onde vivemos. Quem assim pensa está errado. Muitas vezes as paredes que vemos durante anos nada nos dizem: procuramos outras com outro recheio, com outras cores, com outra vizinhança. A nossa casa, por vezes, nem chega a existir.
A nossa terra, qual é? Dizem que é aquela em que nascemos quando, em muitos casos, nunca o foi e tão poucos chegam a conhecê-la.
A minha terra, diz o BI, é lisboa. Eu digo que não é. Faltam as flores, os montes, o verde o calor; o resto são ninharias....Nessa terra, a minha, está a minha casa; não interessa como é: o que contem é que a faz.

132 (He carries the cross)

Por mais que tentassem o fogo dos seus olhos não cessaria. Ele era um só mas ninguém iria impedir a sua entrega. Morreu e Tudo ficou certo.