Soavam os tambores de guerra. Ela dançava como se se entregasse à causa. Os olhos (fechados) favam mais força ao seu acto. Mexia-se com as batidas levando-nos com ela. Era a última vez que o faria.
Mais um. O meu primeiro. (brainwasherpt@hotmail.com)
terça-feira, agosto 17, 2004
228 (auto retrato)
O poeta que escreve, que conta com os dedos as sílabas incontáveis na cabeça pensativa. O poeta que escreve enquanto se torna calvo ajudado por ele mesmo. O poeta e o seu mundo às cores que sente.
227
Há cores que raramente se tocam. Passam por partes paralelas e, entre duas iguais, existe outra que não elas. É cansativo, é saudoso mas, na maior parte das vezes, é assim: as fronteiras a negro são intransponíveis. Porém, em alguns casos, dá-se um fenómeno deveras estranho (não, não se tocam cores iguais): duas estranhas fundem-se e formam um meio termo. Esta, por sua vez, só está adjacente àquelas que a formaram.
226
Por maior que seja a mão há vícios que não suporta. Os limites definimos às escondidas de nós mesmos. A mesa era retábulo a oficina do que ainda não conhecia. Distraia-se da música que não queria ouvir.
225
A escada era estranha. Parecia um desenho de escher sem perspectivas. Cada degrau tinha um tom de verde e era indefinida. A parede já não se via: era azul como o horizonte que já não tocava há algum tempo. No topo o verde era escuro, era certo; foi perdendo cor como o vermelho do seu vestido.
Com um olhar estranho fita o atrás do muro.
Com um olhar estranho fita o atrás do muro.
224
Mil e uma coisas definem um homem, mil definem o anterior e pelo menos outro. Pessoas, sorrisos, beijos e até números dizem quem somos. Olho p'ra um lado; alguém parecido olha para outro.
Somos tudo o que passou.
Somos tudo o que passou.
segunda-feira, agosto 16, 2004
223 (Le premier jour en tunisie avec Holiday en chantant "you're so easy to remember (and so hard to forget)")
Cheguei julgando-me distante do que fujo. Vi o sol que só a saudade arrefecia pensado que, em pouco tempo, me seria quente. Errei. Atrás do balcão estava um diploma escrito como falava com os seus. Mal o vi percebi que por outros me chegavas.
Ah! Desde que conheço o teu silêncio que o mundo me faz recordar-te. Em Lisboa a publicidade é cirílica, ao meu lado sentam-se pessoas que o segundo nome se apelida de patronímico. Não consigo não te lembrar.
Escrevo a três horas de voo de casa. Escrevo noutro continente. Estou rodeado de mesas de metal vazias; ao fundo oiço ou grilos ou cigarras por vezes interrompidas pelas músicas tunisinas que só me fazem desejar o sítio e o momento em que te conheci. Há poucas horas precediam-nas pessoas que também falavam o teu eslavo. Não consigo, não consigo, não consigo...
Olho p'ros lados e só me lembro de ti. Fecho os olhos e anseio p'lo que quase tive.
Ah! Desde que conheço o teu silêncio que o mundo me faz recordar-te. Em Lisboa a publicidade é cirílica, ao meu lado sentam-se pessoas que o segundo nome se apelida de patronímico. Não consigo não te lembrar.
Escrevo a três horas de voo de casa. Escrevo noutro continente. Estou rodeado de mesas de metal vazias; ao fundo oiço ou grilos ou cigarras por vezes interrompidas pelas músicas tunisinas que só me fazem desejar o sítio e o momento em que te conheci. Há poucas horas precediam-nas pessoas que também falavam o teu eslavo. Não consigo, não consigo, não consigo...
Olho p'ros lados e só me lembro de ti. Fecho os olhos e anseio p'lo que quase tive.
222 (Uma questão de qualquer coisa)
Detesto as pessoas que associam a determinadas cores certos sentimentos. Detesto-as; no geral as associações são comuns entre elas porém, comigo, isso nunca sucede.
A minha tristeza é verde; um verde diluído a conta-gotas como a esperança que se esvai com cada passo errado que dou. Se espero, instintivamente, choro.
O quente é branco como a delicada capa de tudo o que aspiro ter. Tão frágil e tão visível no fundo negro que centra.
O rubro é azul como o azul que me persegue e que me queima por dentro.
As cores que sobram são restos que só uso para enfeitar.
(O detestar não é para ser interpretado como tal).
A minha tristeza é verde; um verde diluído a conta-gotas como a esperança que se esvai com cada passo errado que dou. Se espero, instintivamente, choro.
O quente é branco como a delicada capa de tudo o que aspiro ter. Tão frágil e tão visível no fundo negro que centra.
O rubro é azul como o azul que me persegue e que me queima por dentro.
As cores que sobram são restos que só uso para enfeitar.
(O detestar não é para ser interpretado como tal).
220 ((Longo suspiro) Anos dourados)
Uma vez esperei-a no Carmo. A fonte estava, a meu ver seca; as àrvores ganhavam unm verde que a noite escurecia. Olhava para a porta do convento que, em parte, ainda está de pé:---------------------------------------------------------------------------------------------------------
Dessa vez esperei-a no largo do Carmo. A noite era agradável; a fonte ainda estava seca e as àrvores ganhavam um verde que a noite e as luzes de halogénio tornavam artificial. Eu estava sentado nas escadas que levam à porta do pouco que ainda está de pé; olhava-a e sabia-a intransponível.
De súbito chegou linda. Não me viu logo. Olhei-a com o olhar de carneiro mal morto que só mais tarde me receitou (senti-me tão bem).
Depois do jantar fomos. Estava tudo na mesma.
Dessa vez esperei-a no largo do Carmo. A noite era agradável; a fonte ainda estava seca e as àrvores ganhavam um verde que a noite e as luzes de halogénio tornavam artificial. Eu estava sentado nas escadas que levam à porta do pouco que ainda está de pé; olhava-a e sabia-a intransponível.
De súbito chegou linda. Não me viu logo. Olhei-a com o olhar de carneiro mal morto que só mais tarde me receitou (senti-me tão bem).
Depois do jantar fomos. Estava tudo na mesma.
219 (A aventura no carro tom de cinza/The mighty four in the car of Miguel's mother)
A estrada levava-nos de uma ponta a outra da vila. A meio havia um pequeno trilho com as dimensões (falo de largura) do carro. Entrámos, alterados pela mente, com as luzes desligadas; avançamos pouco, ligámos o rádio e, quando a eugénia largou o machado, gritámos. Avançamos, mas só em nós mesmos: limpos por dentro éramos outros.
Saímos lentamente a apontar para o sol que deixámos de recear.
Limpos por dentro, éramos outros.
Saímos lentamente a apontar para o sol que deixámos de recear.
Limpos por dentro, éramos outros.
218 (Do corredor marista)
I
Ao voltar do norte lembrei-me da terrinha que p'la primeira vez vi aind'eu era infante de sonhos que, aos poucos, e por minha própria vontade, ficaram distantes de mim. Houve vezes em que voltei p'ra eles como o filho que retorna ao pai em auxílio mas, e só na última vez o vi, nunca fui bem recebido.
Hoje olho pa trás e tudo parece mais evidente. Sinto nostalgia; não sinto falta dos sonhos, sinto falta de sonhar.
II
Vi-a pela primeira vez tinha eu pouco mais de uma década. Era verde no meio do betão cuja superfície mudou ao longo da minha assaz infância. Era um abrigo e não cresceu como eu; por falta de senso, pareceu-me sensato.
Ao voltar do norte lembrei-me da terrinha que p'la primeira vez vi aind'eu era infante de sonhos que, aos poucos, e por minha própria vontade, ficaram distantes de mim. Houve vezes em que voltei p'ra eles como o filho que retorna ao pai em auxílio mas, e só na última vez o vi, nunca fui bem recebido.
Hoje olho pa trás e tudo parece mais evidente. Sinto nostalgia; não sinto falta dos sonhos, sinto falta de sonhar.
II
Vi-a pela primeira vez tinha eu pouco mais de uma década. Era verde no meio do betão cuja superfície mudou ao longo da minha assaz infância. Era um abrigo e não cresceu como eu; por falta de senso, pareceu-me sensato.
217 (Outra vez no mesmo de sempre)
Pessoas , mais pessoas: ninguém para mim. Desconheço-os e nem querendo anseio fazê-lo. Gentinha colada, abafada por uma vida que nunca quis. Distraiem-se no túnel, ainda mais abaixo de tudo o que os pisa: na sua vida, menos é sinal de excesso.
Erguem os braços e inundam a carruagem com o seu esforço- esforçam-se os outros para não ceder. Ao longe, um senhor mal aguenta o ar que passa ao seu colega da frente- mais de metade arrepia: amanhã vai estar de febre.
Estou quente; fico rubro lentamente; tirem-me daqui, sou louco, e isto é gente.
Erguem os braços e inundam a carruagem com o seu esforço- esforçam-se os outros para não ceder. Ao longe, um senhor mal aguenta o ar que passa ao seu colega da frente- mais de metade arrepia: amanhã vai estar de febre.
Estou quente; fico rubro lentamente; tirem-me daqui, sou louco, e isto é gente.
216 (Back to Lisbon)
Há já algum tempo que não andava de metro, que não ouvia música sem sentido e notícias que só o tentam ter. Voltei à cidade que não sei ser minha, eis-me em lx e, não como antes, só.
Fico por pouco.
Fico por pouco.
sexta-feira, julho 16, 2004
215 (A parede da frente)
A parede da frente é branca como a mesa e como as outras paredes; ela é a maior do meu quarto.
Uma vez desenharam o meu perfil, que estava convenientemente projectado, numa folha. Era para dar a alguém; não o fiz. Guardei-a entre outras para mais tarde a voltar a descobrir. Olhei-a e vi-me como os outros me veêm de lado: faltava tanto para ser como eu. Peguei em cores e pintei o que só estava a carvão; fiz traços e mais traços; defini as camadas que me constituiem.
Na parede da frente (a que está por trás da mesa) estou eu.
Uma vez desenharam o meu perfil, que estava convenientemente projectado, numa folha. Era para dar a alguém; não o fiz. Guardei-a entre outras para mais tarde a voltar a descobrir. Olhei-a e vi-me como os outros me veêm de lado: faltava tanto para ser como eu. Peguei em cores e pintei o que só estava a carvão; fiz traços e mais traços; defini as camadas que me constituiem.
Na parede da frente (a que está por trás da mesa) estou eu.
214 (A mesa de guerra)
Um monitor. Duas colunas a alturas distintas mas as duas mais altas que a mesa. Um candeeiro sobreaquecido que tenta ser visualmente equilibrado. Uma impressora e folhas amontoadas sobre e a volta dela. Caixas de fósforo meio usadas fruto de noites de luxúria. Esferovite de alguma caixa, um perfume quase vazio. O livro azul que nunca uso - nem com dúvidas de português- os cd's que, depois de usados, só conhecem o vidro. As chaves de casa, a carteira, os lápis de cor e de cera e um velho preservativo.
Uma mesa. Um abrigo.
Uma mesa. Um abrigo.
213 (entre dois posts)
Escrevo este texto depois de outro que não vou mostrar. O facto de escrever este não implica qualquer relação com o anterior - só visto por mim. Apetece somente dizer que houve um salto que só eu compreendo: não quero explicar.
Não interessa.
Entre dois posts há mais que umas simples polegadas que eu nunca medi. Estão dias, estão horas, estão segundos e sinto-os de formas tão distintas. Por vezes os primeiros são como os últimos que, em alguns casos, são como os do meio. Há mais que o tempo. Há a forma como o sinto.
Não interessa.
Entre dois posts há mais que umas simples polegadas que eu nunca medi. Estão dias, estão horas, estão segundos e sinto-os de formas tão distintas. Por vezes os primeiros são como os últimos que, em alguns casos, são como os do meio. Há mais que o tempo. Há a forma como o sinto.
quarta-feira, julho 14, 2004
211
As despedidas só custam se implicarem o fim, não de um momento, mas de outros que estariam, a nosso ver, para vir.
O homem (sendo a mulher também um) vive porque tem histórias para contar e outras por viver mas, se o argumento das primeiras, na sua opinião, for mau, e/ou o prognóstico das segundas também o for, ele deixa, só por ele obrigado, de caminhar de um, ou para um, local onde ele so tem, ou terá, aquilo que não quer ter. Temos desejos e gostamos de os ver realizados: só por eles nos movemos. Claro que existem aqueles tipos que falam logo do altruísmo mas eles esquecem que é só o bem-estar de quem o pratica a razão da existência de tal substantivo.
É usual que alguns homens (não volto a referir como emprego esta palavra) gostem de outros. O que mais anseiam é a companhia - e tudo o que ela implica- do outro. Criam-se relações, traçam-se linhas rectas que vão definindo formas pintadas de maneira distinta por aqueles que participam. No final cada um tem um quadro e, ou se gosta, ou não. Há quem queira prolongar a tela e acrescentar traços, pôr mais cores mas, se o quadro do outro não expandir as suas linhas negras de tinta da china, esteticamente, fica tudo desiquilibrado. Aquele que pintou o quadro maior (não interessa se mais belo), distraido pelo seu processo criativo, não vê que não existe porporcionalidade entre as duas obras. O outro tem então que decidir.
O mais pequeno já está na moldura: preenche uma parede para mais tarde ser recordado. O seu autor tem então que decidir se avisa ou não o outro que já não tem mais a pintar. "O mais difícil é saber quando parar" disse-me uma vez o Teles: o mais difícil neste caso é dizê-lo já que, no fundo, qualquer homem gosta de ver que algo por ele é criado mesmo que, no final, ninguém olhe para a parede, não por um quadro, não por outro, mas pelos dois. Aquele que, não percebendo de arte, não gosta de ter, nem de deixar, memórias que que sejam incomodativas do ponto de vistar estético diz. Ao dizer termina todo o processo criativo e com ele cessam as reuniões de trabalho futuras: custa aos dois mesmo que de formas diferentes.
Repito:
As despedidas só custam se implicarem o fim, não de um momento, mas de outros que estariam, a nosso ver, para vir.
O homem (sendo a mulher também um) vive porque tem histórias para contar e outras por viver mas, se o argumento das primeiras, na sua opinião, for mau, e/ou o prognóstico das segundas também o for, ele deixa, só por ele obrigado, de caminhar de um, ou para um, local onde ele so tem, ou terá, aquilo que não quer ter. Temos desejos e gostamos de os ver realizados: só por eles nos movemos. Claro que existem aqueles tipos que falam logo do altruísmo mas eles esquecem que é só o bem-estar de quem o pratica a razão da existência de tal substantivo.
É usual que alguns homens (não volto a referir como emprego esta palavra) gostem de outros. O que mais anseiam é a companhia - e tudo o que ela implica- do outro. Criam-se relações, traçam-se linhas rectas que vão definindo formas pintadas de maneira distinta por aqueles que participam. No final cada um tem um quadro e, ou se gosta, ou não. Há quem queira prolongar a tela e acrescentar traços, pôr mais cores mas, se o quadro do outro não expandir as suas linhas negras de tinta da china, esteticamente, fica tudo desiquilibrado. Aquele que pintou o quadro maior (não interessa se mais belo), distraido pelo seu processo criativo, não vê que não existe porporcionalidade entre as duas obras. O outro tem então que decidir.
O mais pequeno já está na moldura: preenche uma parede para mais tarde ser recordado. O seu autor tem então que decidir se avisa ou não o outro que já não tem mais a pintar. "O mais difícil é saber quando parar" disse-me uma vez o Teles: o mais difícil neste caso é dizê-lo já que, no fundo, qualquer homem gosta de ver que algo por ele é criado mesmo que, no final, ninguém olhe para a parede, não por um quadro, não por outro, mas pelos dois. Aquele que, não percebendo de arte, não gosta de ter, nem de deixar, memórias que que sejam incomodativas do ponto de vistar estético diz. Ao dizer termina todo o processo criativo e com ele cessam as reuniões de trabalho futuras: custa aos dois mesmo que de formas diferentes.
Repito:
As despedidas só custam se implicarem o fim, não de um momento, mas de outros que estariam, a nosso ver, para vir.
sábado, julho 10, 2004
quinta-feira, julho 01, 2004
209
Quando era pequenino queria ser grande, desesperava por isso. Hoje que o sou não dou importância nenhuma.
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