Cheguei julgando-me distante do que fujo. Vi o sol que só a saudade arrefecia pensado que, em pouco tempo, me seria quente. Errei. Atrás do balcão estava um diploma escrito como falava com os seus. Mal o vi percebi que por outros me chegavas.
Ah! Desde que conheço o teu silêncio que o mundo me faz recordar-te. Em Lisboa a publicidade é cirílica, ao meu lado sentam-se pessoas que o segundo nome se apelida de patronímico. Não consigo não te lembrar.
Escrevo a três horas de voo de casa. Escrevo noutro continente. Estou rodeado de mesas de metal vazias; ao fundo oiço ou grilos ou cigarras por vezes interrompidas pelas músicas tunisinas que só me fazem desejar o sítio e o momento em que te conheci. Há poucas horas precediam-nas pessoas que também falavam o teu eslavo. Não consigo, não consigo, não consigo...
Olho p'ros lados e só me lembro de ti. Fecho os olhos e anseio p'lo que quase tive.
Mais um. O meu primeiro. (brainwasherpt@hotmail.com)
segunda-feira, agosto 16, 2004
222 (Uma questão de qualquer coisa)
Detesto as pessoas que associam a determinadas cores certos sentimentos. Detesto-as; no geral as associações são comuns entre elas porém, comigo, isso nunca sucede.
A minha tristeza é verde; um verde diluído a conta-gotas como a esperança que se esvai com cada passo errado que dou. Se espero, instintivamente, choro.
O quente é branco como a delicada capa de tudo o que aspiro ter. Tão frágil e tão visível no fundo negro que centra.
O rubro é azul como o azul que me persegue e que me queima por dentro.
As cores que sobram são restos que só uso para enfeitar.
(O detestar não é para ser interpretado como tal).
A minha tristeza é verde; um verde diluído a conta-gotas como a esperança que se esvai com cada passo errado que dou. Se espero, instintivamente, choro.
O quente é branco como a delicada capa de tudo o que aspiro ter. Tão frágil e tão visível no fundo negro que centra.
O rubro é azul como o azul que me persegue e que me queima por dentro.
As cores que sobram são restos que só uso para enfeitar.
(O detestar não é para ser interpretado como tal).
220 ((Longo suspiro) Anos dourados)
Uma vez esperei-a no Carmo. A fonte estava, a meu ver seca; as àrvores ganhavam unm verde que a noite escurecia. Olhava para a porta do convento que, em parte, ainda está de pé:---------------------------------------------------------------------------------------------------------
Dessa vez esperei-a no largo do Carmo. A noite era agradável; a fonte ainda estava seca e as àrvores ganhavam um verde que a noite e as luzes de halogénio tornavam artificial. Eu estava sentado nas escadas que levam à porta do pouco que ainda está de pé; olhava-a e sabia-a intransponível.
De súbito chegou linda. Não me viu logo. Olhei-a com o olhar de carneiro mal morto que só mais tarde me receitou (senti-me tão bem).
Depois do jantar fomos. Estava tudo na mesma.
Dessa vez esperei-a no largo do Carmo. A noite era agradável; a fonte ainda estava seca e as àrvores ganhavam um verde que a noite e as luzes de halogénio tornavam artificial. Eu estava sentado nas escadas que levam à porta do pouco que ainda está de pé; olhava-a e sabia-a intransponível.
De súbito chegou linda. Não me viu logo. Olhei-a com o olhar de carneiro mal morto que só mais tarde me receitou (senti-me tão bem).
Depois do jantar fomos. Estava tudo na mesma.
219 (A aventura no carro tom de cinza/The mighty four in the car of Miguel's mother)
A estrada levava-nos de uma ponta a outra da vila. A meio havia um pequeno trilho com as dimensões (falo de largura) do carro. Entrámos, alterados pela mente, com as luzes desligadas; avançamos pouco, ligámos o rádio e, quando a eugénia largou o machado, gritámos. Avançamos, mas só em nós mesmos: limpos por dentro éramos outros.
Saímos lentamente a apontar para o sol que deixámos de recear.
Limpos por dentro, éramos outros.
Saímos lentamente a apontar para o sol que deixámos de recear.
Limpos por dentro, éramos outros.
218 (Do corredor marista)
I
Ao voltar do norte lembrei-me da terrinha que p'la primeira vez vi aind'eu era infante de sonhos que, aos poucos, e por minha própria vontade, ficaram distantes de mim. Houve vezes em que voltei p'ra eles como o filho que retorna ao pai em auxílio mas, e só na última vez o vi, nunca fui bem recebido.
Hoje olho pa trás e tudo parece mais evidente. Sinto nostalgia; não sinto falta dos sonhos, sinto falta de sonhar.
II
Vi-a pela primeira vez tinha eu pouco mais de uma década. Era verde no meio do betão cuja superfície mudou ao longo da minha assaz infância. Era um abrigo e não cresceu como eu; por falta de senso, pareceu-me sensato.
Ao voltar do norte lembrei-me da terrinha que p'la primeira vez vi aind'eu era infante de sonhos que, aos poucos, e por minha própria vontade, ficaram distantes de mim. Houve vezes em que voltei p'ra eles como o filho que retorna ao pai em auxílio mas, e só na última vez o vi, nunca fui bem recebido.
Hoje olho pa trás e tudo parece mais evidente. Sinto nostalgia; não sinto falta dos sonhos, sinto falta de sonhar.
II
Vi-a pela primeira vez tinha eu pouco mais de uma década. Era verde no meio do betão cuja superfície mudou ao longo da minha assaz infância. Era um abrigo e não cresceu como eu; por falta de senso, pareceu-me sensato.
217 (Outra vez no mesmo de sempre)
Pessoas , mais pessoas: ninguém para mim. Desconheço-os e nem querendo anseio fazê-lo. Gentinha colada, abafada por uma vida que nunca quis. Distraiem-se no túnel, ainda mais abaixo de tudo o que os pisa: na sua vida, menos é sinal de excesso.
Erguem os braços e inundam a carruagem com o seu esforço- esforçam-se os outros para não ceder. Ao longe, um senhor mal aguenta o ar que passa ao seu colega da frente- mais de metade arrepia: amanhã vai estar de febre.
Estou quente; fico rubro lentamente; tirem-me daqui, sou louco, e isto é gente.
Erguem os braços e inundam a carruagem com o seu esforço- esforçam-se os outros para não ceder. Ao longe, um senhor mal aguenta o ar que passa ao seu colega da frente- mais de metade arrepia: amanhã vai estar de febre.
Estou quente; fico rubro lentamente; tirem-me daqui, sou louco, e isto é gente.
216 (Back to Lisbon)
Há já algum tempo que não andava de metro, que não ouvia música sem sentido e notícias que só o tentam ter. Voltei à cidade que não sei ser minha, eis-me em lx e, não como antes, só.
Fico por pouco.
Fico por pouco.
sexta-feira, julho 16, 2004
215 (A parede da frente)
A parede da frente é branca como a mesa e como as outras paredes; ela é a maior do meu quarto.
Uma vez desenharam o meu perfil, que estava convenientemente projectado, numa folha. Era para dar a alguém; não o fiz. Guardei-a entre outras para mais tarde a voltar a descobrir. Olhei-a e vi-me como os outros me veêm de lado: faltava tanto para ser como eu. Peguei em cores e pintei o que só estava a carvão; fiz traços e mais traços; defini as camadas que me constituiem.
Na parede da frente (a que está por trás da mesa) estou eu.
Uma vez desenharam o meu perfil, que estava convenientemente projectado, numa folha. Era para dar a alguém; não o fiz. Guardei-a entre outras para mais tarde a voltar a descobrir. Olhei-a e vi-me como os outros me veêm de lado: faltava tanto para ser como eu. Peguei em cores e pintei o que só estava a carvão; fiz traços e mais traços; defini as camadas que me constituiem.
Na parede da frente (a que está por trás da mesa) estou eu.
214 (A mesa de guerra)
Um monitor. Duas colunas a alturas distintas mas as duas mais altas que a mesa. Um candeeiro sobreaquecido que tenta ser visualmente equilibrado. Uma impressora e folhas amontoadas sobre e a volta dela. Caixas de fósforo meio usadas fruto de noites de luxúria. Esferovite de alguma caixa, um perfume quase vazio. O livro azul que nunca uso - nem com dúvidas de português- os cd's que, depois de usados, só conhecem o vidro. As chaves de casa, a carteira, os lápis de cor e de cera e um velho preservativo.
Uma mesa. Um abrigo.
Uma mesa. Um abrigo.
213 (entre dois posts)
Escrevo este texto depois de outro que não vou mostrar. O facto de escrever este não implica qualquer relação com o anterior - só visto por mim. Apetece somente dizer que houve um salto que só eu compreendo: não quero explicar.
Não interessa.
Entre dois posts há mais que umas simples polegadas que eu nunca medi. Estão dias, estão horas, estão segundos e sinto-os de formas tão distintas. Por vezes os primeiros são como os últimos que, em alguns casos, são como os do meio. Há mais que o tempo. Há a forma como o sinto.
Não interessa.
Entre dois posts há mais que umas simples polegadas que eu nunca medi. Estão dias, estão horas, estão segundos e sinto-os de formas tão distintas. Por vezes os primeiros são como os últimos que, em alguns casos, são como os do meio. Há mais que o tempo. Há a forma como o sinto.
quarta-feira, julho 14, 2004
211
As despedidas só custam se implicarem o fim, não de um momento, mas de outros que estariam, a nosso ver, para vir.
O homem (sendo a mulher também um) vive porque tem histórias para contar e outras por viver mas, se o argumento das primeiras, na sua opinião, for mau, e/ou o prognóstico das segundas também o for, ele deixa, só por ele obrigado, de caminhar de um, ou para um, local onde ele so tem, ou terá, aquilo que não quer ter. Temos desejos e gostamos de os ver realizados: só por eles nos movemos. Claro que existem aqueles tipos que falam logo do altruísmo mas eles esquecem que é só o bem-estar de quem o pratica a razão da existência de tal substantivo.
É usual que alguns homens (não volto a referir como emprego esta palavra) gostem de outros. O que mais anseiam é a companhia - e tudo o que ela implica- do outro. Criam-se relações, traçam-se linhas rectas que vão definindo formas pintadas de maneira distinta por aqueles que participam. No final cada um tem um quadro e, ou se gosta, ou não. Há quem queira prolongar a tela e acrescentar traços, pôr mais cores mas, se o quadro do outro não expandir as suas linhas negras de tinta da china, esteticamente, fica tudo desiquilibrado. Aquele que pintou o quadro maior (não interessa se mais belo), distraido pelo seu processo criativo, não vê que não existe porporcionalidade entre as duas obras. O outro tem então que decidir.
O mais pequeno já está na moldura: preenche uma parede para mais tarde ser recordado. O seu autor tem então que decidir se avisa ou não o outro que já não tem mais a pintar. "O mais difícil é saber quando parar" disse-me uma vez o Teles: o mais difícil neste caso é dizê-lo já que, no fundo, qualquer homem gosta de ver que algo por ele é criado mesmo que, no final, ninguém olhe para a parede, não por um quadro, não por outro, mas pelos dois. Aquele que, não percebendo de arte, não gosta de ter, nem de deixar, memórias que que sejam incomodativas do ponto de vistar estético diz. Ao dizer termina todo o processo criativo e com ele cessam as reuniões de trabalho futuras: custa aos dois mesmo que de formas diferentes.
Repito:
As despedidas só custam se implicarem o fim, não de um momento, mas de outros que estariam, a nosso ver, para vir.
O homem (sendo a mulher também um) vive porque tem histórias para contar e outras por viver mas, se o argumento das primeiras, na sua opinião, for mau, e/ou o prognóstico das segundas também o for, ele deixa, só por ele obrigado, de caminhar de um, ou para um, local onde ele so tem, ou terá, aquilo que não quer ter. Temos desejos e gostamos de os ver realizados: só por eles nos movemos. Claro que existem aqueles tipos que falam logo do altruísmo mas eles esquecem que é só o bem-estar de quem o pratica a razão da existência de tal substantivo.
É usual que alguns homens (não volto a referir como emprego esta palavra) gostem de outros. O que mais anseiam é a companhia - e tudo o que ela implica- do outro. Criam-se relações, traçam-se linhas rectas que vão definindo formas pintadas de maneira distinta por aqueles que participam. No final cada um tem um quadro e, ou se gosta, ou não. Há quem queira prolongar a tela e acrescentar traços, pôr mais cores mas, se o quadro do outro não expandir as suas linhas negras de tinta da china, esteticamente, fica tudo desiquilibrado. Aquele que pintou o quadro maior (não interessa se mais belo), distraido pelo seu processo criativo, não vê que não existe porporcionalidade entre as duas obras. O outro tem então que decidir.
O mais pequeno já está na moldura: preenche uma parede para mais tarde ser recordado. O seu autor tem então que decidir se avisa ou não o outro que já não tem mais a pintar. "O mais difícil é saber quando parar" disse-me uma vez o Teles: o mais difícil neste caso é dizê-lo já que, no fundo, qualquer homem gosta de ver que algo por ele é criado mesmo que, no final, ninguém olhe para a parede, não por um quadro, não por outro, mas pelos dois. Aquele que, não percebendo de arte, não gosta de ter, nem de deixar, memórias que que sejam incomodativas do ponto de vistar estético diz. Ao dizer termina todo o processo criativo e com ele cessam as reuniões de trabalho futuras: custa aos dois mesmo que de formas diferentes.
Repito:
As despedidas só custam se implicarem o fim, não de um momento, mas de outros que estariam, a nosso ver, para vir.
sábado, julho 10, 2004
quinta-feira, julho 01, 2004
209
Quando era pequenino queria ser grande, desesperava por isso. Hoje que o sou não dou importância nenhuma.
terça-feira, junho 29, 2004
208 De onde tudo começa
Tirei uma taça de gelatina do frigorífico. Não sei a que sabe, mas prefiro a laranja e foi essa que tirei. Já não comia esta sobremesa há algum tempo e, estranhamente, ao lembrar-me da minha primeira refeição no refeitório do meu colégio, inundaram-me memórias daquele tempo.
Entrei na pré-primária. Não gostei muito ao início (acho que até chorei). Rapidamente tudo mudou. Comecei a conhecer aqueles que, mesmo não tendo qualquer importância para o meu equílibrio nos dias de hoje, foram essenciais à minha formação como pessoa. Quem me aparou as lágrimas no primeiro dia foi a Ana Vera (nunca mais a vi), quem me deu a primeira sova foi o Gil o eterno protector do Luís (ainda o vejo), e o primeiro com que gozei foi o Pereira (vejo-o frequentemente). Este último usava suspensórios que eu passava os dias a puxar, irritávamo-nos frequentemente, mas hoje, puxando um pelo o outro, somos amigos.
Pouco ou nada fazia. Sempre fui solitário e entretinha-me muito inventando histórias, imaginando feitos. Por vezes tentava jogar futebol mas, desde que os meus olhos me transmitiram somente cores verdes durante meia-hora, devido a uma colisão com uma bola, que me deixei disso. Também havia um conjunto de ferrinhos que eu inúmeras vezes tentei tocar era mais fraquinho que hoje e só com um impulso de outrém conseguia chegar ao ferro mais alto: lembro-me que ficava tão feliz e, ao mesmo tempo, com vertingens - a ajuda era irrelevante eu chegara lá.
Hoje, se passar ao lado daqueles ferros, vou vê-los de cima; só me conseguirei pendurar se dobrar os joelhos. Com o tempo o que antes achava colossal passou a ser um simples brinquedo da infância. Cresci, sou outro, o recreio é outro, e os brinquedos também o são. Quando eu era pequenino nao chegava aos ferrinhos que hoje vejo de cima; lembro-me e tenho saudades.
Entrei na pré-primária. Não gostei muito ao início (acho que até chorei). Rapidamente tudo mudou. Comecei a conhecer aqueles que, mesmo não tendo qualquer importância para o meu equílibrio nos dias de hoje, foram essenciais à minha formação como pessoa. Quem me aparou as lágrimas no primeiro dia foi a Ana Vera (nunca mais a vi), quem me deu a primeira sova foi o Gil o eterno protector do Luís (ainda o vejo), e o primeiro com que gozei foi o Pereira (vejo-o frequentemente). Este último usava suspensórios que eu passava os dias a puxar, irritávamo-nos frequentemente, mas hoje, puxando um pelo o outro, somos amigos.
Pouco ou nada fazia. Sempre fui solitário e entretinha-me muito inventando histórias, imaginando feitos. Por vezes tentava jogar futebol mas, desde que os meus olhos me transmitiram somente cores verdes durante meia-hora, devido a uma colisão com uma bola, que me deixei disso. Também havia um conjunto de ferrinhos que eu inúmeras vezes tentei tocar era mais fraquinho que hoje e só com um impulso de outrém conseguia chegar ao ferro mais alto: lembro-me que ficava tão feliz e, ao mesmo tempo, com vertingens - a ajuda era irrelevante eu chegara lá.
Hoje, se passar ao lado daqueles ferros, vou vê-los de cima; só me conseguirei pendurar se dobrar os joelhos. Com o tempo o que antes achava colossal passou a ser um simples brinquedo da infância. Cresci, sou outro, o recreio é outro, e os brinquedos também o são. Quando eu era pequenino nao chegava aos ferrinhos que hoje vejo de cima; lembro-me e tenho saudades.
quarta-feira, junho 23, 2004
205
Vês menos
mas vês;
e isso basta-te.
Tiraram-te a perspectiva
vês tudo plano
mas isso
nunca te interessou.
Tens o mundo
sobre ele cai o teu olhar
E isso basta-te
basta veres.
Penélope desfaz o manto
que de dia teceu.
Penélope esperava Ulisses
Ele se nao viesse
era na mesma esperado.
Penéope esperava
Ulisses tentava
chegar.
"Onde estás?"
-Grita ele em cada passo
"Onde estás?
Onde estás?
Onde...
Onde..."
Enquanto a procurava
Elas foram encontradas
surgiram entre as àguas
perdidas.
O seu canto chamava
Clamava ao Id...
Porque lhes resistiu?
Porque só que ela?
Sob a ovelha esconde-se;
Ela,
tão meiga,
não faz adivinhar.
Toca-lhe,
É macia
aproxima-te
aquece-te.
Por baixo esconde-se o lobo:
Come-te
Quer-te.
Ela amava-te
Deu-te a taça do néctar.
Era linda a musa
Omni (quase) sapiente;
mas tua via-la
de outra forma:
"dizias que não",
-Não que não possas-
mas assim achaste.
Viraste as costas
e foste.
Chorou,
Viu-te cinzento.
Queriam entrar na pedra
Esconderam-se na madeira que enformaram
Esconderam-se,
Não os viram,
Entraram.
Por dentro ruiu
o que se fechou.
são heróis
OS que ficaram.
Nos campos que o rei lavrou
o rei estrava prostrado.
Mãos ao alto,
a saudade que não é grega sentida
"Não deixo ìtaca
Não deixo Penélope"
Só depois da partida
os encontraste.
A bruxa era rameira
usou-te.
Fez o que antes fizeras
Sentiste-te o porco que foste
E que ainda eras.
Andaste;
esqueceste;
eras tu
de novo.
Gritava
Gritava por niguém.
Riam-se todos.
De que te servem as velas
se o vento
não sopra?
De que te servem os remos
se não há braços?
Revoltas?
De que te serve
o que não podes usar?
Olha,
olha o chão
Faz
o que podes.
207
O passado está em nós; só deixa de fazer parte do nosso dia a dia se nós o permitirmos, se virmos que o futuro somos nós quem o faz baseados no que pisámos e inspirados p'lo que nos pisou.
terça-feira, junho 22, 2004
124
Acumula-se no canto empurrada por memórias; prende-se -não é o momento certo e, no fundo, é tímida. Está à espera que eu esteja sozinho ("espera um bocadinho está quase"). Guarda-se: a conversa durou...despedidas sem retorno ("espera só mais um bocadinho está quase prometo"). Cheguei, falei...("n te xateies foi só mais um pouco"). Finalmente entrei, saiu e chorei.
terça-feira, junho 08, 2004
205 Algo fita do escuro
Fecharam a porta que eu só vi um lado. No exterior a escuridão, em parte, era consumida pela luz dos advogados que gostavam de mostrar que o eram; sentei-me e começou a espera.
O espaço foi-se reduzindo. Eu, tão maior que antes, não me conseguia alargar e, se me tentasse erguer, não iria além da tentativa.
Tentei escrever mas, pela primeira vez desde há muito, não tinha como o fazer...o silêncio e o nada que ele implica entraram em mim de rompante: quase que enlouqueci.
Abriu-se uma porta. Era o advogado que restava que saía e que com ele levava a luz. Tudo piorou. Os altos que eu já conhecia da parede que, aos poucos, aquecera passaram a existir só ao meu tacto: só ele agora me fazia companhia.
Um piano começou a soar melodias sem nenhuma relação. Quem tocava estava como eu. O escuro lentamente ganhou forma: o que já não via apareceu. Agarrei-me como se de outra pessoa me tratasse senti que outra qualquer me abraçava: no feérico a solidão cessou.
Entretanto fartei-me e com esforço ergui-me. Com o toque de um dedo surgiu a luz com um clac. Desci e, depois de falar com estranhos para matar tempo e de ouvir intimidades que nunca perceberei, voltei a subir. Repetiu-se o ritual até a porta se abrir.
Já não há mais a contar (e assim se findou uma história).
O espaço foi-se reduzindo. Eu, tão maior que antes, não me conseguia alargar e, se me tentasse erguer, não iria além da tentativa.
Tentei escrever mas, pela primeira vez desde há muito, não tinha como o fazer...o silêncio e o nada que ele implica entraram em mim de rompante: quase que enlouqueci.
Abriu-se uma porta. Era o advogado que restava que saía e que com ele levava a luz. Tudo piorou. Os altos que eu já conhecia da parede que, aos poucos, aquecera passaram a existir só ao meu tacto: só ele agora me fazia companhia.
Um piano começou a soar melodias sem nenhuma relação. Quem tocava estava como eu. O escuro lentamente ganhou forma: o que já não via apareceu. Agarrei-me como se de outra pessoa me tratasse senti que outra qualquer me abraçava: no feérico a solidão cessou.
Entretanto fartei-me e com esforço ergui-me. Com o toque de um dedo surgiu a luz com um clac. Desci e, depois de falar com estranhos para matar tempo e de ouvir intimidades que nunca perceberei, voltei a subir. Repetiu-se o ritual até a porta se abrir.
Já não há mais a contar (e assim se findou uma história).
segunda-feira, junho 07, 2004
204
Quem me conhece sabe que tenho sempre onde escrever e onde desenhar: preciso de me expandir constantemente mas só quem me conhece o sabe.
Todas as folhas que escrevo ou pinto são parte de mim; se as dou é porque me estou a dar e só me dou a quem eu julgo gostar (há casos em que me arrependo).
Tenho um caderno que tinha 120 folhas. Só me lembro por imagens.
Todas as folhas que escrevo ou pinto são parte de mim; se as dou é porque me estou a dar e só me dou a quem eu julgo gostar (há casos em que me arrependo).
Tenho um caderno que tinha 120 folhas. Só me lembro por imagens.
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