Mais um. O meu primeiro. (brainwasherpt@hotmail.com)

quarta-feira, maio 05, 2004

186 (Sigh!)

O que diz um suspiro ouvido do nada? O que diz? Sonhos que caiem, alegrias instantâneas, dúvidas momentâneas, simplesmente saudades.
Um suspiro, um instinto não animal...Ai, ai...O passado, o que tenho, o que terei...Um suspiro diz tudo o que importa.

185 (Sobre a matemática, sobre[]tudo)

A não experiência não implica falta de jeito. O treino, como é lógico, ajuda mas há coisa que são inatas.

184 (Cálculo prático)

Apeteceu-me escrever enquanto o senhor professor falava da hessiana orlada e de optimizações. Para o jovem pedagogo era tudo tão simples; com um sistema e uma matriz determina se um ponto estacionário é um máximo um mínimo ou outra coisa qualquer.
Por mais que leia ou aprenda nunca terei a sua genialidade e savoir faire: as contas são rápidas quer tenham ou não quadrados e a matriz é logo preenchida (mesmo que o faça não sei interpretar determinantes).

Apeteceu-me escrever. Que mais faço com gosto? Aprendo merdas que não utilizo - não há mulheres orladas, não há um lambda que me auxilie. Escrevo porque me apetece, escrevo porque não me optimizo.

183

Não tinha nada para fazer; tudo havia sido desmarcado na véspera. Chegou a casa e meditou como vira nos filmes (nesse instante queria ver um) mas de nada lhe serviu.
Olhou a cama; deitou-se: só viu a luz do dia seguinte.

terça-feira, maio 04, 2004

182 (A receita)

Gostava de escrever quando quisesse. Escrevo só quando me apetece: quando saio de mim.
Podia dizer que tal acontecimento depende do tempo, mais especificadamente, da humidade relativa do ar mas, se o fizesse, estaria a ser muito redutor e os erros seriam exagerados.
De facto escrevo, melhor, apetece-me fazê-lo quando muitas variáveis se conjugam. Não interessa quais. Se soubesse, se quisesse, simulava as condições e, no final, tinha um livro.

181 (Depois de tentar começar uma)

Todas as histórias têm um começo; a partir dele tentamos adivinhar o resto e supômos o final. Se tudo corre como julgámos sentimo-nos um pouco desiludidos com o que não nos surpeendeu.
À medida que nos afastamos do nosso nascimentos fica cada vez mais fácil prever (correctamente) o desenlace - pudera;já ouvimos tantas histórias e já vivemos tantas outras: com a idade é mais difícil a surpresa.
Comigo - ou melhor - cada história que me tem como protagonista ou até mesmo como personagem secundária tem o seu pouco de estranho: acabam sempre por me surpreender.
Por vez gostava de ter uma história normal, de saber o que esperar dos outros (daqueles com quem convivo). Os sinais seriam por uma vez o que nunca foram: sinais. Os sorrisos seriam sorrisos, as mãos enlaçadas diriam o que se diz quando se enlaçam as mãos. Se assim fosse ficaria surpreso.

180 (Maria)

Gritou. Era a hora do almoço; estava servido. Gritou; não foram p'ra mesa.

179

Se fossemos sinceros não desdobraríamos os pensamentos em folhas de papel - nem sequer pensaríamos no assunto.
Se fossemos sinceros saberíamos - não era necessário perguntar.
Se fossemos sinceros não existiriam poetas - não se embelezavam as palavras, acreditar-se-ia simplesmente.

Sou poeta;não sei; digo de forma pensada.

178 (A consciência)

- Vamos à teórica!
- Se adormeceres diz-me o que interessa.

177 (Citando Teles)

"Se não tens mão-de-obra como sobes o produto." (Falemos no geral)

176

O coro cantava o que mais ninguém via. O coro cantava o destino. Os seus olhos estranhos de uma forma estranha olhavam o vazio - viam o que mais ninguém via. O coro cantava, o coro dizia - o que só ele sabia mais ninguém via.
Monocórdicos, atulados, abraçados os pensamentos; sofrimentos, alegrias em cantigas anciãs.
Ouve-o, escuta-o, perscruta o teu dia; o que ele canta o que ele diz é o que só ele sabe. Vai-te, parte, esquece o finito: o coro é antigo mas sabe o futuro.

175

Os olhos desencontrados eram amostras de raiva, de rancor que crescia de uma forma lasciva: os extremos tocaram-se.

174 (A cadeira do Eero)

Desde que vi uma que anseio ter um conjunto delas. A sua forma de flor (de tulipa), a sua perna tão esguia, deliciam o meu instinto de equilíbrio estético. Desde que vi aquela cadeira da Köln que sei que vou ter uma, melhor, umas delas.
Podem dizer que é uma cadeira como outra qualquer; que só tem um forma bonita; até podem acusá-la de não encaixar bem nas costas e de me entortar. Não importa: é linda, e, p'lo que parece, ninguém, além de mim, a vai usar.
Ocupa espaço, preenche-o bem. Sempre faz alguma coisa.

173

Já faz algum tempo desde a ùltima vez que escrevi. Podia inventar motivos parvos que, por o serem, não teriam qualquer significado porém cinjo-me a dizer, e creio que de uma forma sincera, que não consigo, que não o fiz porque não me apeteceu (fazê-lo).
Detesto criar linhas por obrigação. Essas não têm vida. Tudo o que acumulo neste bloco de notas tem origem natural: o esforço que houve era o que tinha de haver, nunca me abriram o ùtero.

Escrevo o que quer ser escrito, não o que devo escrever.

terça-feira, abril 27, 2004

172 (O beijo/O sonho)

Tocavam-se,
Os olhos cerrados olhavam-se
- Um deles era feliz.
Abraçava-a com o carinho que tão poucas vezes deu.
Abraçava-a;
Retia-a;
Não a queria perder.

171 (Spring)

O verde primaveril corrompe o vermelho da carne.

170 (Underground)

As veias da cidade carregam células mortas que teoricamente são a vida. Não comunicam entre elas: são cada vez mais umas e o resto não interessa.
As veias da cidade carregam células mortas que, de uma forma agregada, se deslocam. O tempo rege-as, o tempo dit a o que cada uma delas faz: estão mortas por isso, a vida que lhes resta não é nada.
As veias da cidade carregam células mortas. Eu sou uma delas. Sou levado de um extremo a outro em menos de uma hora. Sou uma célula morta que o tempo ditou.

domingo, abril 25, 2004

169 (You may call it happinness)

O tempo, o tempo é como o concebemos. Há quem diga que é triste, cinzento e mau mas, quando o faz, não percebe que esses adjectivos são somente seus. O céu mais negro, o mar mais agitado pode ser, se o quisermos, o que de mais belo vimos.
Aos pouco abdico do que me entristece: do que faz com que a chuva corroa e que o sol arda. E, à medida que o faço, tudo ganha outro sentido. Percorro sempre o mesmo caminho mas é cada vez menos o anterior. As árvores agora querem acolher-me na sua sombra; o sol anima-me e, como o verde, parece que é meu...
Esqueci a ânsia, o desejo que uma mão se enlace. "Nada espero" o que me dão basta.

sábado, abril 24, 2004

168 (O dia do ex-namorado árabe)

A chuva cessou de cair. Estava sol. Acordei mais tarde que habitual - não ter aulas é uma benção. Lentamente levantei-me ao som de árias que, em vão, tento cantar. Ergui os estores; entrou o que já não via, o que, com o calor, senti. Pressenti algo de novo...
A água quente parecia que escorria mais delicadamente em mim. Sob ela passei mais tempo. Vesti-me e fui chegando 3 minutos antes da partida (Que sorte!).
No comboio tentei fazer o projecto que me mostrara mas não me lembrei das medidas. Cingi-me a olhar o mar mais azul, o forte que quase toquei e a lembrar-me da ilha que antes havia.
Cheguei a Lisboa na hora certa, ofereceram-me um livro que não consegui ler. P'lo menos alguém dá linhas, não interessa o que têm: que alguém leia. O destino, supostamente final, vi-o dois minutos depois do combinada, mas ainda esperei ao som do piano que mais gosto.
Passeamos, rimos e até lemos. Foi o que me bastou. Despedi-me como uma criança imberbe que nunca havia pisado aquele solo.
A cidade, como o dia, era-me outra. Voltei, desta vez, feliz.

quarta-feira, abril 21, 2004

167

Gosto dos dias que são como eu: aqueles dias em que o céu está cinzento e chove mas não muito.
As pessoas na rua são poucas e, na maioria, protegem-se sob alguma capa. Andam a correr como se menos se molhassem pensando somento no calor do abrigo.
O piso encharca-se mas não se chega a lavar: a água que voltará a subir acentua somente o quão conspurcado está. Há uma réstia de vento; o mar está escuro, talvez agitado.
As pessoas na rua são poucas e, as que vejo, estão longe: não se querem diluir numa chuva que corrói, não querem isar o que veêm estar sujo. Detestam o que este céu trouxe esquecendo que só falta o sol.