Mais um. O meu primeiro. (brainwasherpt@hotmail.com)

terça-feira, abril 27, 2004

172 (O beijo/O sonho)

Tocavam-se,
Os olhos cerrados olhavam-se
- Um deles era feliz.
Abraçava-a com o carinho que tão poucas vezes deu.
Abraçava-a;
Retia-a;
Não a queria perder.

171 (Spring)

O verde primaveril corrompe o vermelho da carne.

170 (Underground)

As veias da cidade carregam células mortas que teoricamente são a vida. Não comunicam entre elas: são cada vez mais umas e o resto não interessa.
As veias da cidade carregam células mortas que, de uma forma agregada, se deslocam. O tempo rege-as, o tempo dit a o que cada uma delas faz: estão mortas por isso, a vida que lhes resta não é nada.
As veias da cidade carregam células mortas. Eu sou uma delas. Sou levado de um extremo a outro em menos de uma hora. Sou uma célula morta que o tempo ditou.

domingo, abril 25, 2004

169 (You may call it happinness)

O tempo, o tempo é como o concebemos. Há quem diga que é triste, cinzento e mau mas, quando o faz, não percebe que esses adjectivos são somente seus. O céu mais negro, o mar mais agitado pode ser, se o quisermos, o que de mais belo vimos.
Aos pouco abdico do que me entristece: do que faz com que a chuva corroa e que o sol arda. E, à medida que o faço, tudo ganha outro sentido. Percorro sempre o mesmo caminho mas é cada vez menos o anterior. As árvores agora querem acolher-me na sua sombra; o sol anima-me e, como o verde, parece que é meu...
Esqueci a ânsia, o desejo que uma mão se enlace. "Nada espero" o que me dão basta.

sábado, abril 24, 2004

168 (O dia do ex-namorado árabe)

A chuva cessou de cair. Estava sol. Acordei mais tarde que habitual - não ter aulas é uma benção. Lentamente levantei-me ao som de árias que, em vão, tento cantar. Ergui os estores; entrou o que já não via, o que, com o calor, senti. Pressenti algo de novo...
A água quente parecia que escorria mais delicadamente em mim. Sob ela passei mais tempo. Vesti-me e fui chegando 3 minutos antes da partida (Que sorte!).
No comboio tentei fazer o projecto que me mostrara mas não me lembrei das medidas. Cingi-me a olhar o mar mais azul, o forte que quase toquei e a lembrar-me da ilha que antes havia.
Cheguei a Lisboa na hora certa, ofereceram-me um livro que não consegui ler. P'lo menos alguém dá linhas, não interessa o que têm: que alguém leia. O destino, supostamente final, vi-o dois minutos depois do combinada, mas ainda esperei ao som do piano que mais gosto.
Passeamos, rimos e até lemos. Foi o que me bastou. Despedi-me como uma criança imberbe que nunca havia pisado aquele solo.
A cidade, como o dia, era-me outra. Voltei, desta vez, feliz.

quarta-feira, abril 21, 2004

167

Gosto dos dias que são como eu: aqueles dias em que o céu está cinzento e chove mas não muito.
As pessoas na rua são poucas e, na maioria, protegem-se sob alguma capa. Andam a correr como se menos se molhassem pensando somento no calor do abrigo.
O piso encharca-se mas não se chega a lavar: a água que voltará a subir acentua somente o quão conspurcado está. Há uma réstia de vento; o mar está escuro, talvez agitado.
As pessoas na rua são poucas e, as que vejo, estão longe: não se querem diluir numa chuva que corrói, não querem isar o que veêm estar sujo. Detestam o que este céu trouxe esquecendo que só falta o sol.

terça-feira, abril 20, 2004

166 (Regret)

Sei o resto que sei estar feito e tudo o que por fazer ficou. Resta-me esquecer. Tudo sei: não faço.

165

Transformo o que importa de uma forma exagerada e digo-o. Ninguém me crê.

164

Depois de me expôr sinto-me a vulso.

segunda-feira, abril 19, 2004

163 (Um beijo)

As sombras passam a ser uma só contra a parede branca. Entregam-se tão pequenas e surge uma maior; movendo-se exapande o que é e as sensações que desperta.
Tudo principia quando se encontram no escuro. Se for sentido os olhos cerram, como se não merecessem o que se dá, tudo o que se anseia naquele momento que parece não ter fim. A fronte move-se comovida alimentada do que recebe.
Ah! tão desejado é aquele instante; e quem o quer espera mesmo que anseie: tem de partir de dois - dois lábios não chegam e, sozinhos, de que servem?Quem não o faz mente, não gosta, só oscula por prazer. Por vezes, estupidamente, há quem receie; mas se for sincero porque não o fazer?O outro mesmo que não o queira, se souber, percebe.
Imagino o seu beijo. Estremeço. Não procuro um sabor, já gosto sem o conhecer...Quero sentir que sente que o que sinto é sincero. Quero, por uma vez, me dar.

162

Procura-se. Caso sério.

domingo, abril 18, 2004

161 (O meu primeiro texto de duas páginas)

Acho que muito nunca me esforcei. Sou incapaz de o fazer...

160 (O das 8)

Apetece-me chorar. Estou sentado no comboio com as costas viradas p'ro meu destino; tenho à minha volta no máximo 52 pessoas sentadas e 80 de pé: nunca me senti tão só.
Lá fora não vejo ninguém. O dia está tão cinzento e o mar está tão feio. P'lo menos cá dentro não faz frio. Tremo. Conversas animadas que não percebo, conversas que hoje não conseguiria ter: ouço-as e ainda mais me apetece.
Desenho. Imagino algo diferente, sujo a folha com imagens similares. Figuras que olham a mesma direcção com o olhar certamente meu.
O comboio pára, mudam as pessoas. Estou na mesma. O que me dizem?De que me servem?São mais uns que passam e v
êem e que, por vezes, falam entre eles. O que sou eu aqui?
Está cada vez mais escuro. Perco aos poucos a vontade inexistente de sair, mas não posso: esta viagem tem um fim.

159 (O meu livro de rascunhos)

Abri ao calhas o único caderno que tive na faculdade. Está velho e tem mais rascunhos que matéria. A página que vejo tem linhas que me são estranhas: a grafia tão desenhada com uma inclinação perfeita estudada de certo com primor, como tudo o resto que parte de quem a escreveu.
Dois nomes, são dois nomes escritos separados por uma linha em branco. Sei o que elas dizem e, por isso, consigo-as ler; se assim não fosse teria de aprender russo ou, como já fiz, chatear imigrantes do leste.
O nome dela mais curto que o meu está em cima (de que outra maneira poderia estar?), encabeça uma página desenhada à pressa com um traço amador. O meu, em baixo, com partes mais pequenas e muito mais complexo. Uma seta no meu primeiro nome transforma o manuscrito em máquina: é o mesmo com outra forma.

sábado, abril 17, 2004

156

Hoje enfrentei um fantasma. Não insinuo que se trate de alguma coisa velha ou medonha é porém algo que teve a sua importância e que, de repente, deixou de a ter. O que mudou, se quisermos ser simplistas, é fácil de ver; sou complicado de mais para ter tal ponto de vista e, por isso, penso (De) mais no assunto.
As pessoas mudam conforme o que lhes acontece e cada pessoa muda de uma forma diferente. Que aconteceu algo estou certo o que mudou, mesmo que temporariamente, em mim eu sei; custa-me é perceber o que mudou ou muda nos outros. Os extremos tocam-se disse alguém mais sábio que eu e confirmo-o experimentalmente. Passámos de um ponto para o outro. E querendo acreditar na diferença entre quem interagiu não se vê que a diferença está em nós em momentos distintos.

157 (Ou então)

Raras vezes estou certo das minhas atitudes e tão menos vezes as considero dignas. Custa-me ver que estou rodeado de pessoas tão mais decentes que eu: pessoas honestas, sinceras, solidárias, trabalhadoras...fonte dos valores que a ética promove.

Ou então não.

158

O dia começou da pior maneira. Passava da meia-noite e já ela me desprezava. Deitei-me as três cansado de esperar por uma resposta. Levantei-me às seis como sempre durante a semana de aulas. Arranjei-me corri e perdi o comboio de antes das sete: até nisto nada me deram.
Esperei o outro comboio e mal entrei surpreendi-me: um piano é tocado de uma forma surpreendente (Seria Chopin?Não interessa); olho para a rapariga mais gira da carruagem e (espanto!) escreve como escrevo num bloco como eu já tive - tem somente um ar mais organizado, é mulher. Sento-me e, p'la primeira vez desde que frequento estes espaços, senta-se a meu lado uma rapariga que me parece intrigada com aquilo que escrevo e faço. Muda a música, parece jazz; a outra continua a escrever e, de soslaio, constato que ainda me observam...fico, de certa forma, feliz.
Porque raio me trata ela desta maneira?Merda, irrita-me. A música passa a ser +/- parecida com a de um filme adulto série B. Quer dizer, não me irrita assim tanto é mais uma questão de ego: são sempre as que mais me dizem que menos o fazem e, estranho, será por gostar delas que as ofenderei?Nem quero pensar nisso, está-me a correr bem o dia...
O comboio saiu de Alcântara e já não há mais a escrever: há um primeira vez p'ra tudo.

quarta-feira, abril 14, 2004

155 (Sorry I'm late)

Atrasei-me. Não acordei a tempo e cheguei tarde à estação. O comboio, esse maquinalmente acertou com as horas e fez com que eu esperasse por outro. Já é tarde; pago as consequências: vou em pé.
A minha carruagem (a penúltima) quase sempre vai semi-cheia, mas há um período em que é raro estar vazia. Parte em Cascais; compõe-se de pelo menos 5 zonas diferentes; chega à minha e não há vagas a preencher. Pago as consequências: vou em pé.
Tento escrever e em vão - não consigo suportar o suporte- e desenhar ainda é pior. Ah! logo hoje que estava tão rica a carruagem...A culpa é minha; era tarde. Pago as consequências: vou em pé.

terça-feira, abril 13, 2004

154 (a bit late...)

Um dia que, por ser como os outros, não é igual a nenhum outro.
Acordei por mim mesmo sem saber o que viria; incauto preparei-me. Acabei por ir a lisboa: fui ter com a Maria que, como eu, fixa momentos mas com imagens. O final é o mesmo mas o caminho difere; de resto nem há parecenças. Um é alto, um é fino demais, um tem o cabelo encaracolado, um usa saias e gosta de morenos.
O dia só acabou de noite depois de o cego cantar. O que fiz a seguir não interessa, só interessa o que fixei.

153 (jessica?)

Na sua pele alva esbatia o negro de um luto. Folheava as folhas com côr marcando-as com lágrimas transparentes que, sem querer, ouvi.
O comboio não pára:não a volto a ver.