Mais um. O meu primeiro. (brainwasherpt@hotmail.com)

domingo, abril 18, 2004

161 (O meu primeiro texto de duas páginas)

Acho que muito nunca me esforcei. Sou incapaz de o fazer...

160 (O das 8)

Apetece-me chorar. Estou sentado no comboio com as costas viradas p'ro meu destino; tenho à minha volta no máximo 52 pessoas sentadas e 80 de pé: nunca me senti tão só.
Lá fora não vejo ninguém. O dia está tão cinzento e o mar está tão feio. P'lo menos cá dentro não faz frio. Tremo. Conversas animadas que não percebo, conversas que hoje não conseguiria ter: ouço-as e ainda mais me apetece.
Desenho. Imagino algo diferente, sujo a folha com imagens similares. Figuras que olham a mesma direcção com o olhar certamente meu.
O comboio pára, mudam as pessoas. Estou na mesma. O que me dizem?De que me servem?São mais uns que passam e v
êem e que, por vezes, falam entre eles. O que sou eu aqui?
Está cada vez mais escuro. Perco aos poucos a vontade inexistente de sair, mas não posso: esta viagem tem um fim.

159 (O meu livro de rascunhos)

Abri ao calhas o único caderno que tive na faculdade. Está velho e tem mais rascunhos que matéria. A página que vejo tem linhas que me são estranhas: a grafia tão desenhada com uma inclinação perfeita estudada de certo com primor, como tudo o resto que parte de quem a escreveu.
Dois nomes, são dois nomes escritos separados por uma linha em branco. Sei o que elas dizem e, por isso, consigo-as ler; se assim não fosse teria de aprender russo ou, como já fiz, chatear imigrantes do leste.
O nome dela mais curto que o meu está em cima (de que outra maneira poderia estar?), encabeça uma página desenhada à pressa com um traço amador. O meu, em baixo, com partes mais pequenas e muito mais complexo. Uma seta no meu primeiro nome transforma o manuscrito em máquina: é o mesmo com outra forma.

sábado, abril 17, 2004

156

Hoje enfrentei um fantasma. Não insinuo que se trate de alguma coisa velha ou medonha é porém algo que teve a sua importância e que, de repente, deixou de a ter. O que mudou, se quisermos ser simplistas, é fácil de ver; sou complicado de mais para ter tal ponto de vista e, por isso, penso (De) mais no assunto.
As pessoas mudam conforme o que lhes acontece e cada pessoa muda de uma forma diferente. Que aconteceu algo estou certo o que mudou, mesmo que temporariamente, em mim eu sei; custa-me é perceber o que mudou ou muda nos outros. Os extremos tocam-se disse alguém mais sábio que eu e confirmo-o experimentalmente. Passámos de um ponto para o outro. E querendo acreditar na diferença entre quem interagiu não se vê que a diferença está em nós em momentos distintos.

157 (Ou então)

Raras vezes estou certo das minhas atitudes e tão menos vezes as considero dignas. Custa-me ver que estou rodeado de pessoas tão mais decentes que eu: pessoas honestas, sinceras, solidárias, trabalhadoras...fonte dos valores que a ética promove.

Ou então não.

158

O dia começou da pior maneira. Passava da meia-noite e já ela me desprezava. Deitei-me as três cansado de esperar por uma resposta. Levantei-me às seis como sempre durante a semana de aulas. Arranjei-me corri e perdi o comboio de antes das sete: até nisto nada me deram.
Esperei o outro comboio e mal entrei surpreendi-me: um piano é tocado de uma forma surpreendente (Seria Chopin?Não interessa); olho para a rapariga mais gira da carruagem e (espanto!) escreve como escrevo num bloco como eu já tive - tem somente um ar mais organizado, é mulher. Sento-me e, p'la primeira vez desde que frequento estes espaços, senta-se a meu lado uma rapariga que me parece intrigada com aquilo que escrevo e faço. Muda a música, parece jazz; a outra continua a escrever e, de soslaio, constato que ainda me observam...fico, de certa forma, feliz.
Porque raio me trata ela desta maneira?Merda, irrita-me. A música passa a ser +/- parecida com a de um filme adulto série B. Quer dizer, não me irrita assim tanto é mais uma questão de ego: são sempre as que mais me dizem que menos o fazem e, estranho, será por gostar delas que as ofenderei?Nem quero pensar nisso, está-me a correr bem o dia...
O comboio saiu de Alcântara e já não há mais a escrever: há um primeira vez p'ra tudo.

quarta-feira, abril 14, 2004

155 (Sorry I'm late)

Atrasei-me. Não acordei a tempo e cheguei tarde à estação. O comboio, esse maquinalmente acertou com as horas e fez com que eu esperasse por outro. Já é tarde; pago as consequências: vou em pé.
A minha carruagem (a penúltima) quase sempre vai semi-cheia, mas há um período em que é raro estar vazia. Parte em Cascais; compõe-se de pelo menos 5 zonas diferentes; chega à minha e não há vagas a preencher. Pago as consequências: vou em pé.
Tento escrever e em vão - não consigo suportar o suporte- e desenhar ainda é pior. Ah! logo hoje que estava tão rica a carruagem...A culpa é minha; era tarde. Pago as consequências: vou em pé.

terça-feira, abril 13, 2004

154 (a bit late...)

Um dia que, por ser como os outros, não é igual a nenhum outro.
Acordei por mim mesmo sem saber o que viria; incauto preparei-me. Acabei por ir a lisboa: fui ter com a Maria que, como eu, fixa momentos mas com imagens. O final é o mesmo mas o caminho difere; de resto nem há parecenças. Um é alto, um é fino demais, um tem o cabelo encaracolado, um usa saias e gosta de morenos.
O dia só acabou de noite depois de o cego cantar. O que fiz a seguir não interessa, só interessa o que fixei.

153 (jessica?)

Na sua pele alva esbatia o negro de um luto. Folheava as folhas com côr marcando-as com lágrimas transparentes que, sem querer, ouvi.
O comboio não pára:não a volto a ver.

152 (This is me then)

Não é difícil enumerar as pessoas de quem gostei porém é-me impossível dizer porque motivo gostei delas. Tudo começa com algo tão estranho como uma palavr, um gesto ou um mero olhar...sou um bocado estranho eu sei, mas só um gajo estranho escreve sobre estas merdas como eu faço.
Há uma linha comum entre essas pessoas: não sei como as conquistar. Alguém me dotou da capacidade de resolver problemas de álgebra, de perceber poesia, mas deixou em branco a área de compreensão e sensibilidade (em relação às outras pessoas). Muitas vezes chateio-as com os meus constantes porquês; se o faço é porque não sei o que despoletou certa reacção, certa expressão que estranho..."O que terei feito?O que fiz?" Antes de colocar questões a outros já eu as tentei resolver e, como sempre, em vão.
Sou um tipo aluado, tenho o meu mundinho. Elas convivem comigo e sabem-no, mas depois não compreendem que eu não perceba por completo as suas atitudes; peço desculpa quando nunca o devia ter feito.

151 (no comboio nº qq coisa)

De férias o trajecto é o mesmo: às vezes o trabalho é mais forte. Velhos compõem a carruagem e fazem-me sentir a nostalgia que ainda não tenho.
À minha frente, por algum motivo, lê a bíblia uma pessoa que me parece interessante p'ra quem lhe acha interesse. Atrás de mim uma senhora loura fala com outra, que eu não vi, na língua que alguém já me deu e que eu nada percebi.
"Desculpe menina da frente sabe-me dizer por que é que o que se quer é sempre díficil?". Claro que não perguntei; mas a resposta teria algo de divino.

150 (Depois do nada)

Ás vezes parece que caímos que, sem paragens, nos aproximamos do abismo. A aceleração vertiginosa dá-nos uma velocidade cada vez maior: em pouco tempo quase fundimos.
Tentamos gritar mas somos mais rápidos que o som; nem força temos para esbracejar mas tentamos.
De repente cessa a queda e não dói como antes. Fatalmente apertaram os braços e, dentro deles, deram-nos o conforto que, não sendo estranho, é raro. Mas antes, antes onde estava?

149 (O...)

O púlpito era nobre: tinha uma faixa colorida. Preparaste de véspera o discurso com o teu conselheiro quase amigo. De uma forma qualquer ias mostrar o que estava cuspido. Abriste a boca e tombaste um pouco para um dos lados - e dizias tu que estavas neutro.
Falaste, falaste, falaste...e até houve quem te ouvisse (não interessa se por pouco). Acabaste. Acordou a maioria. Fez-se fila p'ros bolos.

segunda-feira, abril 12, 2004

148 (it's mine; do not touch)

Rubro; é assim que fico quando alguém toca no que eu fiz ou faço. Sou como uma leoa que protege a sua prole por mais insignificante que seja: é minha e saiu de mim.
Fecho os punhos como se quisesse magoar alguém mas não os uso felizmente. Olho o chão e uso a minha voz da maneira que eu não quero (sim é instinto) e grito, e grito, e grito, e grito, e grito, e, de cada vez que o faço, magoo um pouco quem me rodeia.
Acabo sempre por encontrar o que procurava mas já é tarda: há alguém que chora. Sem saber tenho a culpa. Arrependo-me mas tudo volta a acontecer.

147 (Let's go shopping)

Na rua que subia estava quase no príncipio; na que desce estava no fim. O caminho que eu percorria era iluminado por tipos cobertos de lixo que, com malabarismos dignos de Baco, cravavam moedas para aumentar o teor de algo no corpo.
Ela estava resguardada à frente de outra porta que se fechou. Acompanhava-a uma guitarra triste como ela que olhava o chão.
Na nota certa soltou a sua voz tão mais velha que ela carregada não sei do quê. Principou um fado; não interessa qual - "cheira sempre a solidão". A cabeça p'la primeira vez olhou o céu como se pedisse ou mostrasse qualquer coisa a quem lhe teceu o manto.
Finalmente acabou; chorou; estava tudo na mesma. Se as moedas chegarem, se mais nada a deixar, ela volta porque pode.

domingo, abril 04, 2004

146 (Digamos personalidade)

O carácter existe; só se manifesta porém quando as situações o exigem. Se outros o querem ver devem provocá-lo seriamente: ele alia-se à modéstia e, digamos, à compaixão. No fundo não quer arranjar discussões desnecessárias mesmo que outros as considerem óbvias.

O carácter existe mas forte não se mostra; quer parecer fraco. P'ra quê chegar só por chegar?(não lhe faz sentido).

O carácter existe mas não sabe quantificar a sua força e, quando se solta os sentimentos acima referidos, é atraído pelos seus opostos: pode magoar aqueles de quem gosta e e pode não remediar.

Ele existe mas julgou que não precisava de o conhecer. Mesmo exigindo retraíu-se e, agora que se manifesta, vê que é tarde: o que o carrega é um brinquedo (se o houve já não há respeito).

sábado, abril 03, 2004

145 (Is it solow 1?)

O sofrimento cresce a uma taxa S e a autoestima detiora-se a uma taxa A.

144 ("I'm always true to you darling in my fashion")

Às vezes cansados cansamo-nos: só nos resta partir.

A espera prolonga-se, a paciência reduz-se. Os que nos rodeia aos poucos deixa de ser novo; já conhecemos tudo e quase todos - mesmo os que ainda não passaram. Fixamos algo, não interessa o quê, desdobramos, inventamos e até criamos enquanto não temos mais que fazer...os segundos acumulam-se enquanto o vento leva o que exponencialmente deixa de restar.

Partimos e esperámos.

terça-feira, março 30, 2004

143 (then the ?)

A interrogação que tão laranja se apresentava contrastava com a evidência verde do resto.

segunda-feira, março 29, 2004

142 (yes doctor)

Hoje diagnosticaram-me esquizofrenia. Comecei a pensar nisso e cheguei à conclusão de que provavelmente o sou. Vivo no meu mundo; tento fazer com que seja como eu quero; não tenho pejo em cantar o que me apetece, em desenhar o que eu anseio ver e em dizer o que vai em mim.
Hoje diagnosticaram-me esquizofrenia. Compreendo. Não sou como eles (digamos os outros). Eu sou eu e como dizia a Florbela eu como ela sou alguém. Quem não me compreende é que, no fundo, tem problemas.