Mais um. O meu primeiro. (brainwasherpt@hotmail.com)

quarta-feira, abril 14, 2004

155 (Sorry I'm late)

Atrasei-me. Não acordei a tempo e cheguei tarde à estação. O comboio, esse maquinalmente acertou com as horas e fez com que eu esperasse por outro. Já é tarde; pago as consequências: vou em pé.
A minha carruagem (a penúltima) quase sempre vai semi-cheia, mas há um período em que é raro estar vazia. Parte em Cascais; compõe-se de pelo menos 5 zonas diferentes; chega à minha e não há vagas a preencher. Pago as consequências: vou em pé.
Tento escrever e em vão - não consigo suportar o suporte- e desenhar ainda é pior. Ah! logo hoje que estava tão rica a carruagem...A culpa é minha; era tarde. Pago as consequências: vou em pé.

terça-feira, abril 13, 2004

154 (a bit late...)

Um dia que, por ser como os outros, não é igual a nenhum outro.
Acordei por mim mesmo sem saber o que viria; incauto preparei-me. Acabei por ir a lisboa: fui ter com a Maria que, como eu, fixa momentos mas com imagens. O final é o mesmo mas o caminho difere; de resto nem há parecenças. Um é alto, um é fino demais, um tem o cabelo encaracolado, um usa saias e gosta de morenos.
O dia só acabou de noite depois de o cego cantar. O que fiz a seguir não interessa, só interessa o que fixei.

153 (jessica?)

Na sua pele alva esbatia o negro de um luto. Folheava as folhas com côr marcando-as com lágrimas transparentes que, sem querer, ouvi.
O comboio não pára:não a volto a ver.

152 (This is me then)

Não é difícil enumerar as pessoas de quem gostei porém é-me impossível dizer porque motivo gostei delas. Tudo começa com algo tão estranho como uma palavr, um gesto ou um mero olhar...sou um bocado estranho eu sei, mas só um gajo estranho escreve sobre estas merdas como eu faço.
Há uma linha comum entre essas pessoas: não sei como as conquistar. Alguém me dotou da capacidade de resolver problemas de álgebra, de perceber poesia, mas deixou em branco a área de compreensão e sensibilidade (em relação às outras pessoas). Muitas vezes chateio-as com os meus constantes porquês; se o faço é porque não sei o que despoletou certa reacção, certa expressão que estranho..."O que terei feito?O que fiz?" Antes de colocar questões a outros já eu as tentei resolver e, como sempre, em vão.
Sou um tipo aluado, tenho o meu mundinho. Elas convivem comigo e sabem-no, mas depois não compreendem que eu não perceba por completo as suas atitudes; peço desculpa quando nunca o devia ter feito.

151 (no comboio nº qq coisa)

De férias o trajecto é o mesmo: às vezes o trabalho é mais forte. Velhos compõem a carruagem e fazem-me sentir a nostalgia que ainda não tenho.
À minha frente, por algum motivo, lê a bíblia uma pessoa que me parece interessante p'ra quem lhe acha interesse. Atrás de mim uma senhora loura fala com outra, que eu não vi, na língua que alguém já me deu e que eu nada percebi.
"Desculpe menina da frente sabe-me dizer por que é que o que se quer é sempre díficil?". Claro que não perguntei; mas a resposta teria algo de divino.

150 (Depois do nada)

Ás vezes parece que caímos que, sem paragens, nos aproximamos do abismo. A aceleração vertiginosa dá-nos uma velocidade cada vez maior: em pouco tempo quase fundimos.
Tentamos gritar mas somos mais rápidos que o som; nem força temos para esbracejar mas tentamos.
De repente cessa a queda e não dói como antes. Fatalmente apertaram os braços e, dentro deles, deram-nos o conforto que, não sendo estranho, é raro. Mas antes, antes onde estava?

149 (O...)

O púlpito era nobre: tinha uma faixa colorida. Preparaste de véspera o discurso com o teu conselheiro quase amigo. De uma forma qualquer ias mostrar o que estava cuspido. Abriste a boca e tombaste um pouco para um dos lados - e dizias tu que estavas neutro.
Falaste, falaste, falaste...e até houve quem te ouvisse (não interessa se por pouco). Acabaste. Acordou a maioria. Fez-se fila p'ros bolos.

segunda-feira, abril 12, 2004

148 (it's mine; do not touch)

Rubro; é assim que fico quando alguém toca no que eu fiz ou faço. Sou como uma leoa que protege a sua prole por mais insignificante que seja: é minha e saiu de mim.
Fecho os punhos como se quisesse magoar alguém mas não os uso felizmente. Olho o chão e uso a minha voz da maneira que eu não quero (sim é instinto) e grito, e grito, e grito, e grito, e grito, e, de cada vez que o faço, magoo um pouco quem me rodeia.
Acabo sempre por encontrar o que procurava mas já é tarda: há alguém que chora. Sem saber tenho a culpa. Arrependo-me mas tudo volta a acontecer.

147 (Let's go shopping)

Na rua que subia estava quase no príncipio; na que desce estava no fim. O caminho que eu percorria era iluminado por tipos cobertos de lixo que, com malabarismos dignos de Baco, cravavam moedas para aumentar o teor de algo no corpo.
Ela estava resguardada à frente de outra porta que se fechou. Acompanhava-a uma guitarra triste como ela que olhava o chão.
Na nota certa soltou a sua voz tão mais velha que ela carregada não sei do quê. Principou um fado; não interessa qual - "cheira sempre a solidão". A cabeça p'la primeira vez olhou o céu como se pedisse ou mostrasse qualquer coisa a quem lhe teceu o manto.
Finalmente acabou; chorou; estava tudo na mesma. Se as moedas chegarem, se mais nada a deixar, ela volta porque pode.

domingo, abril 04, 2004

146 (Digamos personalidade)

O carácter existe; só se manifesta porém quando as situações o exigem. Se outros o querem ver devem provocá-lo seriamente: ele alia-se à modéstia e, digamos, à compaixão. No fundo não quer arranjar discussões desnecessárias mesmo que outros as considerem óbvias.

O carácter existe mas forte não se mostra; quer parecer fraco. P'ra quê chegar só por chegar?(não lhe faz sentido).

O carácter existe mas não sabe quantificar a sua força e, quando se solta os sentimentos acima referidos, é atraído pelos seus opostos: pode magoar aqueles de quem gosta e e pode não remediar.

Ele existe mas julgou que não precisava de o conhecer. Mesmo exigindo retraíu-se e, agora que se manifesta, vê que é tarde: o que o carrega é um brinquedo (se o houve já não há respeito).

sábado, abril 03, 2004

145 (Is it solow 1?)

O sofrimento cresce a uma taxa S e a autoestima detiora-se a uma taxa A.

144 ("I'm always true to you darling in my fashion")

Às vezes cansados cansamo-nos: só nos resta partir.

A espera prolonga-se, a paciência reduz-se. Os que nos rodeia aos poucos deixa de ser novo; já conhecemos tudo e quase todos - mesmo os que ainda não passaram. Fixamos algo, não interessa o quê, desdobramos, inventamos e até criamos enquanto não temos mais que fazer...os segundos acumulam-se enquanto o vento leva o que exponencialmente deixa de restar.

Partimos e esperámos.

terça-feira, março 30, 2004

143 (then the ?)

A interrogação que tão laranja se apresentava contrastava com a evidência verde do resto.

segunda-feira, março 29, 2004

142 (yes doctor)

Hoje diagnosticaram-me esquizofrenia. Comecei a pensar nisso e cheguei à conclusão de que provavelmente o sou. Vivo no meu mundo; tento fazer com que seja como eu quero; não tenho pejo em cantar o que me apetece, em desenhar o que eu anseio ver e em dizer o que vai em mim.
Hoje diagnosticaram-me esquizofrenia. Compreendo. Não sou como eles (digamos os outros). Eu sou eu e como dizia a Florbela eu como ela sou alguém. Quem não me compreende é que, no fundo, tem problemas.

141 (At the chinese place)

Estavas à distância de uma mesa que se alongava ao compasso das palavras tremidas que eu dizia. Olhavas de uma forma estranha o que eu não sei; a sopa estranha, aos poucos, arrefecia. Acabei; cruzei os talheres. Perguntei-te o que não te apetecia dizer.

140 (ataraxia)

Há coisas que começam inesperadamente. Porventura não serão quase todas? Creio que sim. Porém umas fazem.no inexplicavelmente e essas são sempre inesperadas.
Uma palavrafoi uma palavra que bastou para tudo ter início; as que se seguiram somente confirmaram o que já tinha surgido. Não há explicação possível - foi uma palavra que se ouviu.
Podia ter começadop com um olhar: até considero mais comum. MAs quis, o que eu não sei, que assim não fosse. E, embora goste de ver quem tal palavra proferiu, não foi pelo olhar que tudo começou (ah só o que me disse me interessa).
Que seja como é; que saiba ao que sabe: isso é quase nada. Se não dissesse nem isto existiria.

domingo, março 21, 2004

138 (no concerto)

A droga da mente é ela própria. O raciocínio exige cada vez mais de si. É um processo que começa e só termina quando uma nova conclusão passa a ser arbitrária.

Nada é fixo: o pensamento por isso também não o é. Caminha numa direcção até ver que esta não lhe serve; chega a um extremo e, de seguida, procura o oposto ou outro que lhe seja adjacente.

E continua, e continua, e muda, e muda; continua sem cessar. Cada vez estou mais farto mas os juizos são necessários que arbitrários sejam.

Os ouvidos já me doem. Os neurónios estão doridos.

137 (no concerto)q

Se eu me deixasse levar pela música...Não o faço por estupidez: racional não me consinto e só isso quero.

Se me deixasse levar pelos momentos que me deste. Se não fosse racionalmente parvo, cobarde e até mesquinho...

Se me deixasse levar p'lo que sei ser certo

136 (no concerto)

Eles queriam morrer felizes: eram tristes - davam as mãos como se servisse para alguma coisa.

Pediram que lhes desse o que nunca tiveram: sorrisos.

Ele ergueu o braço. nenhum deles preocupado. Nenhum deles sentiu.

sexta-feira, março 19, 2004

135

Escrevo enquanto fumo um charuto pensativo. O mar está ao fundo e nem o vento interrompe este meu ritual. Em Cascais as luzes acendem-se com o acumular de linhas. O horizonte (ao qual nunca se chega) aos poucos perde o laranja, o pouco que resta, e ganha o tom azul.

Escrevo enquanto o tabaco arde de uma forma pensada pensando que o faço por instinto. O pouco do dia que tive passei com o meu passado: passei-o com ela (a primeira). Aos poucos vou-me redimindo. Errei, sei que o fiz: o ouro era-me cobre e a eu parvo só o vejo agora. P'lo menos alguem consegue ser feliz e isso faz-me, por pouco, feliz.

Escrevo enquanto se acumulam as cinzas. Desde há muito que não estou de facto sozinho em minha casa. Sinto-me só, é certo, mas estou sempre rodeado por alguém mesmo que esse alguém esteja no quarto ao lado. De facto, sozinho raramente estive: parece que tudo é mais meu; posso pensar, escrever, gritar fazer as merdas que quero sem ter alguém a perguntar a mar vir: é bom.

Escrevo enquanto há algo por arder. Tenho por momentos o que quase compõe o meu sonho. O espaço é meu; faço o que quero: estou sozinho. Mas falta alguém: ela (e não a primeira) está tão longe, não faz parte deste meu mundo que, enquanto puxo, fica mais cinzento.

Escrevo enquanto estiver rubro. Pedi tanto e tanto me deram se de facto há algo que dá. Pedi mas não consigo crer que me enviaram: é tão perfeita - até mais do que julguei; tem tudo, é um sonho que sonhei consciente mas a consciência é pessimista e p'ra ela eu sou péssimo. Por nais que me mostre não me diz ou então não ouço.

Escrevo enquanto não é curto. A esperança resta e morre antes do coirpo que morre por não a ter. Talvez consiga. Talvez se apague antes do fim. Talvez me levante antes de arder.

Já é de noite e estou sentado. Apagou-se. Não há mais a escrever.